quarta-feira, 16 de maio de 2012

OBAALA OLUWO IFARUNAOLA

A INICIAÇÃO


No Brasil e em vários lugares do mundo existem milhares e milhares de pessoas que, maravilhadas pelo mistério dos Òrìsà. Quer sejam descendentes de africanos, europeus, asiáticos ou de qualquer outra raça do planeta, acabam transpondo as portas da iniciação, surpreendidos pelo paradoxo de defrontar-se com crenças alicerçadas em rituais de rebuscada complexidade e ao mesmo tempo simples de entendimento na sua essência. As cerimônias são alegres, coloridas, embaladas pelo som dos tambores nos quatro cantos do mundo, agregando pessoas de todas as camadas sociais; contudo, o aprendizado ritual e filosófico requer estudos sérios e contínuos, que acompanharão o iniciado pela vida afora. Que mistérios são esse, ocultos em meio a lendas e ensinamentos de sabedoria ancestral? O que na verdade leva pessoas às mais diferentes tradições afro-descendentes, em busca da iniciação? 

1 - O QUE É INICIAÇÃO?

Iniciar-se (popularmente no Brasil diz-se "fazer santo") é possibilitar através de rituais próprios que o lado divino da criatura transpareça; é libertar o Deus Interior (Ori Inu) que existe em cada ser humano, permitindo-lhe vir à tona e provocar impulso irresistível capaz de conduzir a individualidade à realização pessoal, estabelecendo dessa maneira a mais perfeita comunhão possível com o Universo, com a Natureza, com o Criador, enfim, com a própria Vida, em seu pulsar infinito. Corpo físico, mente e alma são ritualisticamente preparados para componentes da manifestação divina. Condições propícias são estabelecidas para que a memória ancestral possa florescer nos recessos do inconsciente, produzindo muitas vezes o transe, em suas mais variadas formas e também variados graus. "Fazer santo" é nascer de novo, renascer como indivíduo mais forte, completo, potencialmente seguro, com melhores condições para, ao abandonar medos, traumas ou bloqueios, lançar-se inteiro na busca da realização pessoal.

2 - POR QUE SE INICIAR? "FAZER SANTO"?

Conhecer a si mesmo: pressuposto básico para a realização pessoal em todos os níveis. Desde sua origem o ser humano anseia pelo encontro com o Infinito. Essa busca incansável frequentemente provoca verdadeiras batalhas que são travadas no interior do indivíduo, acompanhadas por sentimentos de angústia, ansiedade, inconformismo ou até mesmo desespero frente ao desconhecido ou ao irremediável: as fatalidades e incertezas do amanhã, o ciclo da vida, a morte. Todo esse processo destina-se a criação de ambiente propício ao tão sonhado encontro. A história da humanidade espelha essa incansável busca de respostas aos enigmas da vida:

Quem sou eu?

De onde venho?

Para onde vou?

A felicidade é perseguida por todos, sendo muitas vezes um desejo alimentado pela incerteza: "Quero ser feliz, mas não sei bem o que é felicidade". E o ser humano continua a colocar a própria felicidade longe de si mesmo, em circunstâncias exteriores: dinheiro, posição, poder, fama, ou na dependência de outras pessoas: "Se ele - ou ela - me amar, serei feliz".

Há milhares de anos, o nativo do continente africano já tinha os mesmos anseios: conhecer seu Deus, os mistérios do Universo, a origem da Vida. Olodumárè (o Criador), em sua Graça e Poder infinitos, permitiu-lhes conhecer a sabedoria do IFA (a revelação): a Criação do Universo e dos seres humanos, os princípios que regulam as relações entre Ilú Aiyé (a Terra) o Orún (mundo espiritual) e o conhecimento dos Òrìsa, divindades partícipes da Criação e intermediárias entre Deus (Olodumárè) e os homens.

Desenvolveram-se rituais iniciáticos para os mistérios dos Òrìsà, como forma de realizar o sagrado em si mesmo, ou seja, permitir que o Deus Interior, na figura de um ancestral divino, desperte em cada indivíduo e estabeleça a ponte com o Cosmos, tão necessária à realização pessoal, tornando-o assim capaz de fazer escolhas mais acertadas e consequentes em relação à vida e aos semelhantes, na construção da própria felicidade. A compreensão clara de que destino é possibilidade e não fatalidade é a base dessa realização. O conhecimento das forças que regem o Universo e a Vida nas suas mais variadas formas e meios de manifestação, bem como dos princípios que regulam essa interação é o caminho da Iniciação.

3 - INICIAÇÃO: QUEM, QUANDO E COMO?

O momento do chamado é diferente para cada pessoa. Para alguns, uma doença difícil de ser curada: outros, as dificuldades do próprio caminho; outros ainda buscam fugir às religiões tradicionais por concluírem que muitas delas estão tão voltadas para o dia a dia dos homens e seus interesses imediatos que acabam fugindo à sua real finalidade: promover o encontro do ser com a Divindade. Ampará-lo em suas dificuldades espirituais e consequentemente, também as materiais. Alguns ainda são provenientes de outras religiões ou filosofias espiritualistas; finalmente, existem aqueles que simplesmente são tocados pelo Òrìsà, nos recessos da própria alma. Muitos são descendentes de africanos, mas não é regra. Na África o culto está realmente ligado às famílias, mas no Brasil, principalmente a miscigenação, trouxe para toda a população a denominação afro-descendente. A iniciação (feitura) propriamente dita acontece num período de reclusão que varia de sete a dezessete dias. Esse período é comparável a gestação na barriga da mãe; nesse aspecto, o aposento sagrado representa o ventre da própria mãe natureza. O neófito aprende os mistérios básicos das divindades e da Criação; os costumes da comunidade e os princípios que regulam as relações da família religiosa (hierarquia sacerdotal); as formas adequadas de comportamento nas cerimônias públicas e restritas. Conhecimentos acerca de seu próprio Òrìsà lhe são ministrados: a maneira adequada de cultuá-lo, suas proibições (ewò) (quando houver), as virtudes que deverão ser cultivadas e os vícios que deverão ser evitados para atrair influências benéficas e uma relação harmoniosa com a divindade pessoal.

4 - O QUE PODE MUDAR NA VIDA DO INICIADO?

O Destino é dado a cada ser na forma de possibilidade, nunca como fatalidade. Desse modo, quem antes de voltar ao mundo escolheu, por exemplo, ser médico, ao renascer na Terra encontrará em seu caminho situações que o direcionem para essa profissão. Entretanto, isto não quer dizer que necessariamente venha a exercer a medicina. Ele pode a qualquer tempo mudar os rumos da própria vida através do exercício do livre-arbítrio (o que, aliás, é um conceito universal). Cada qual constrói a própria história. Ocorre muitas vezes a pessoa acabar fazendo escolhas erradas e sofrendo consequências desastrosas. Pode ser fruto de um destino ruim, que exigirá tempo e determinação para ser superado. A dor transforma-se em companheira constante. Ligam-se a tudo isso os problemas do dia a dia (para não mencionar a situação difícil da sociedade contemporânea); o conjunto acaba provocando sentimentos de impotência frente aos obstáculos e encruzilhadas da vida, ou simplesmente solidão, carência de aconchego, de orientação, de coragem. Carência de fé. O Òrìsà pessoal, nesse particular, pode influenciar e muito, prevenindo ou mesmo remediando tais situações, conferindo força e equilíbrio ao seu tutelado, restaurando-lhe as energias, estendendo-lhe proteção e orientando-o quanto ao melhor caminho a seguir. Mas o indivíduo deve permitir que o Òrìsà atue de modo construtivo na sua própria vida. Òrìsà não representa problema no caminho de ninguém - pode significar a solução. Através do seu apoio divino o ser humano pode criar condições para vencer as barreiras internas e externas para a construção de um futuro melhor.

IGBERE – INICIAÇÃO

A presença do orisa na vida de uma pessoa depende do fortalecimento do ori para acoplamento do seu ase, através do ritual de iniciação. Após diversos tipos de ebo, banhos de folhas e Ebori, o iniciando está purificado e fortalecido para ter plantada no seu corpo a energia do seu orisa tutelar. Trata-se de ritual complexo e com características sob medida para a entidade única que é o iniciando em questão e o seu orisa. O ritual de iniciação não decorre de desejo próprio, mas depende de prescrição oracular e conforme o próprio termo, marca, não a concretização, mas o início de um aprendizado e desafios constantes que requerem disciplina e dedicação espiritual pelo resto da vida.

Não implica em qualquer tipo de submissão contrariada, pois o ori é soberano no seu livre-arbítrio. No entanto, uma vez tendo vivenciado a sublime e divina presença do orisa, o afastamento deste, mesmo que voluntário, se faz sentir como um vazio sombrio que pode até ser confundido – errôneamente - com castigo. O orisa não necessita infringir castigos, primeiro porque, como energia da natureza, não depende da adesão de devotos - nós é que precisamos do orisa - segundo, porque a sua simples ausência em nossas vidas, já se caracteriza por si só, como desgraça.

terça-feira, 15 de maio de 2012

INICIAÇÃO NO CANDOMBLÉ

ÌBÈRÈ — O RITUAL DE INICIAÇÃO

A iniciação possibilita manter a casa para pessoas habilitadas a lhe dar continuidade e manter um forte elemento de coesão do grupo, pela solidariedade natural que o fato determina. Todos passaram pelo mesmo ritual e sabem bem das diferentes situações enfrentadas. Os problemas emocionais, financeiros e psicológicos, aliados à força de vontade e, sobretudo, à humildade são um forte fator para se começar uma nova vida onde uma personalidade será construída. É todo esse conjunto de situações que possibilita o ingresso numa nova família: a família-de-santo. 

A pessoa terá, então, um novo nome com o qual será conhecida, adquirirá novos hábitos e, principalmente, terá o compromisso constante como seu Òrìsà e com a sua Ìyálórìsà. 

A reclusão possibilita treinamento metódico, estudo de sensações e observações gerais, além de ordenar e controlar as manifestações. Cria um condicionamento a certos ritmos e cantigas bem determinados, preparando a pessoa até o dia de dar o Orúko, ou seja, nome iniciático. 

Não são os anos de feitura que promovem uma Ìyàwó, mas as obrigações de um, três e sete anos, quando então ela perde essa ÒRÌSÀ — pronúncia correta ORIXÁ — deuses Iorubás na África e no Novo Mundo — seriam ancestrais míticos encantados e metamorfoseados nas forças da natureza. Os deuses do Candomblé.


A palavra Orixá vem do sânscrito e é composta de OR ou ORI que significa “luz” e em Iorubá “cabeça”; XA que significa “senhor, chefe, dono”. São pois, as forças criativas da natureza. No Candomblé significa, dono da cabeça. A palavra “Orixá” significa, em iorubá “Ministro de Olorum”. Segundo outros autores, Oxalá é considerado o pai de todos os Orixás; e foi ele que os denominou Orixá. Este título de “pai”, neste caso, sugere a sua relação com as outras divindades no caso de muitas delas terem sido emanadas dele. A fragmentação do de seu corpo, e posterior recolhimento de todos os seus “pedaços” espalhados pela Terra, fez surgir a palavra Òrìsà, uma contração da expressão “OHUN TI A RI SÀ”, o que foi achado e juntado, fazendo, assim, surgir as demais divindades que foram denominadas Òrìsà. 

ÌYÁLÓRÌSÀ — pronúncia correta IYÁLORIXÁ — sacerdotisa do Candomblé; mãe (no culto de Orixá) Dirigente Feminina. 

ORÚKO — pronúncia correta ÔRÚKÔ — nome iniciático. 

ÌYÀWÓ — pronúncia correta IAÔ — adepto do Candomblé que ainda não completou os 7 anos de iniciação. Iniciada, Iniciado. A palavra “Orixá” significa, em iorubá “Ministro de Olorum”. 

condição, passando a ser uma Ègbónmi. Ìyàwó é o primeiro grau de um caminho de promoções. 

BÓLÓNAN — BOLAR NO SANTO 

É a primeira manifestação de um Òrìsà numa pessoa, que ocorre geralmente de forma bruta e sem qualquer previsão. Pode ser durante uma festa ao se cantar para um determinado Òrìsà; a pessoa é vítima de tremores e sobressaltos, caindo no chão inconsciente. Este momento é visto como um apelo do Òrìsà à iniciação. Bolar vem de embolar, e é uma formar alterada do yorubá Bólóna(n) , BO, cair + lóna(n), no caminho. Nesses casos, a dirigente a cobre com um pano branco e ela é carregada para o interior da Casa. Lá é desvirada e comunicada. Se desejar, já permanecerá para a iniciação. Na maioria das vezes, volta para casa, ficando o assunto para ser decidido mais tarde. Se permanecer no terreiro, será na qualidade de Abíyán, uma aspirante. Dará um Bori, e terá um colar de contas de seu Òrìsà e de Òsàlá, lavados com sabão-da-costa, e tomará um banho de folhas maceradas. Irá adquirir os materiais para a sua iniciação, comprando-os aos poucos, e passará a esperar por ela, que poderá ser junto com outros ou sozinha, o que sempre é mais oneroso. A iniciação conjunta estabelece um vínculo poderoso entre todos denominados irmãos-de-barco. Essa palavra barco pode ser entendida como um coletivo para os iniciados em grupo. Em outros casos, o Bólóna(n) se torna um ritual específico, quando o grupo a ser iniciado é reunido no terreiro e são entoados alguns cânticos de chamada. Isto tem o seguinte objetivo: 

1 — Nos casos de haver no grupo pessoas apontadas pelo 

Òrìsà como Ogans ou Ekedjis, para certificar-se de que eles não viram com o santo, podendo ser, assim, devidamente confirmados. Caso haja manifestação de algum Òrìsà, eles integrarão o grupo de futuros Adósù, ou seja, pessoas que serão devidamente raspadas e terão um ritual bem mais complexo e demorado. 

2 — Certificar se o Òrìsà foi mesmo aquele revelado no jogo. A cantiga no qual se bolou será sempre lembrada e fará parte de sua 

identidade. 

Determinar a composição do barco de Ìyáwo, por ocasião da saída. O primeiro a se manifestar será o Dofono(a) do barco, ou seja, virá à frente dos demais. Através de articulações ou não, o primeiro será sempre um filho de Ògún, daí o título que este Òrìsà carrega, Asiwajú, o que vem na frente dos demais. 

ETAPAS DA INICIAÇÃO 

Em linhas gerais, há um modelo adotado pelas casas tradicionais pessoais da qualidade do Òrìsà. No Candomblé, cada caso é um caso diferente. Podemos enumerar os procedimentos a serem feitos: 

1 — Subir para o Candomblé onde ficará três dias em descanso. São momentos de integração ao ambiente e às pessoas, longe dos problemas e outras preocupações. 

2 — Será designada a Ajibóna(n) que a acompanhará como sua mãe criadeira. A iniciação já começa com a entrada da pessoa no Candomblé. 

3 — No quarto dia, será realizado os Ebós, e a pessoa tomará banhos de ervas. 

DOFONO — significa a primeira Ìyáwo, ou seja, aquele que virá à frente dos demais. O primeiro a se manifestar no ritual do Bólónan será o Dofono do barco. Porém, através de articulações ou não, o primeiro será sempre um filho de Ògún. 

ÒGÚN — pronúncia correta OGUM — Gum: guerra — Orixá guerreiro da tecnologia e da metalurgia. 

ASIWAJÚ — pronúncia correta ASSIUAJÚ ? — título de Ogum que quer dizer “o que vem na frente”. 

CANDOMBLÉ — é uma estrutura de culto às forças da natureza, à um hino, à vida como Eterno Movimento, que se manifesta nas danças, nas cores dos ORIXÁS, nos elementos sacramentais. Ritual comunitário de cantos, danças e alimentos sagrados na sua forma pública, o Candomblé é sacramentado pelo Pai ou Mãe de Santo, pelos Filhos de Santo, pelos tocadores de atabaque (OGAN), que entoam os cantos sagrados possibilitando a vinda do Òrìsás, com a participação da comunidade dos mais velhos às criancinhas. Todos cantam e saúdam os ORIXÁS, executam a dança sagrada, num hino à Alegria, Amor e Partilha. A palavra Candomblé possui dois significados entre os pesquisadores: Candomblé seria uma modificação fonética de "Candonbé", um tipo de atabaque usado pelos negros de Angola; ou ainda, viria de "Candonbidé", que quer dizer "ato de louvar, pedir por alguém ou por alguma coisa". AJIBÓNA — pronúncia correta AJIBÓNAN (vogal precedida de N) — cargo dentro do Candomblé que significa “mãe criadeira”. 

EBÓ — do original EBO — oferenda. Para outros, significa, também, limpeza. 

O RITUAL 

Dar o Bori para, em seguida, entrar no Ilé Àse ou Hunko numa quarta ou quinta-feira. A partir daí o recolhimento é total. 

Essa dependência da Casa é muito especial e onde é colocada uma esteira forrada com lençol branco, tendo por baixo algumas folhas sagradas. 

Nos dezessete dias que virão realizam-se diversos ritos: o Gérun, o corte dos cabelos, lavagem da cabeça e a raspagem. Este ato é feito com a futura Ìyàwó. O cabelo representa a força. Dar o cabelo ao Òrìsà é um ato de submissão e renovação, pois o cabelo ao nascer de novo, vem com toda a força do Òrìsà. No Candomblé Kétu não são feitos tantos cortes, não confundir o Bori com o ato de iniciação. Ele é um ritual que antecede obrigatoriamente a iniciação, e nada tem a ver com “Bori de Fundamento ou de Feitura”. 

ILÉ ÀSE — pronúncia correta ILÊ AXÉ — ILÉ = casa; no sentido mais amplo, a Terra — ÀSE = é a força vital e sagrada que está presente em todas as coisas que a natureza produz; grande fonte de poder que é mantida, ampliada e renovada por meio dos ritos que se processam nos Candomblés — ILÉ ÀSE é o espaço mágico — sagrado para o desenvolvimento das atividades religiosas, onde o exercício do culto é ministrado pelo seu dirigente. Para outros, o mesmo que Hunko. 

HUNKO — pronúncia correta RUNCÓ — também conhecido como Roncó ou Camarinha — local onde se realiza o recolhimento e iniciação da Ìyàwó. 

GÉRUN — pronúncia correta GUÊRUN ? — o corte dos cabelos, feito no ritual de iniciação da feitura do Santo. 

A bucha é de origem asiática e aclimatada no Brasil, sendo muito utilizada nos serviços de limpeza. Na sua falta são utilizadas fibras de palha-da-costa. 

FÁRI — pronúncia correta FARÍ — é o ato de raspar a cabeça para que sejam feitas as obrigações diretamente na cabeça. Vem de Fá = raspar, e Orí = cabeça. FÁ — pronúncia correta FÁ — raspar. 

GBÉRÉ — pronúncia correta GUIBÉRÉ ou BÉRÉ ? — uma sutil incisão que é feita no alto e centro da cabeça, onde é fixado o Òsù, no ato da feitura de Santo. 

Nos Candomblés de Angola, são feitos cortes em outras partes do corpo, inclusive na língua, e denominados Kura. Antigamente, essas kuras eram reabertas nas sextas-feiras santas. 

KÉTU — pronúncia correta Kêtú — nação do Candomblé em que predomina o rito Iorubá. KETU: a cidade de Oxóssi. 

Entende-se que o Àse irá penetrar pelos poros do corpo. Os sacrifícios são efetuados. Durante o ato do sacrifício, os cânticos tradicionais não são cantados. Tudo é feito em silêncio. 

O sacrifício é um ato que segue a interpretação de que o sangue dá a vida, e as penas, a proteção, em lembrança da forma como a galinha acomoda seus pintinhos debaixo das asas. 

Na seqüência, é feito o Kàro, o juramento da Ìyàwó, e o ritual de cantar folhas, o Sàsányìn. Será nesta oportunidade que o com o Odù da Ìyàwó será conhecido. Colocam-se em suas mãos os búzios para ela mesma jogar e a Ìyálórìsà interpreta a caída. As regras repetidas 3, 7 e 16 dias. 

ÀSE — pronúncia correta AXÉ — é a força vital e sagrada que está presente em todas as coisas que a natureza produz; grande frente de poder que é mantida, ampliada e renovada por meio dos ritos que se processam nos Candomblés. Axé significa “que assim seja”, ou “que Deus permita que isto aconteça”. É uma palavra sagrada tão importante quanto Amém, Assim Seja, Aleluia e tantas outras. 

KÀRO — pronúncia correta KARÔ — é o juramento da Ìyàwó. 

OBÌ — pronúncia correta ÔBÍ — noz de cola; fruto africano tão importante para o Candomblé quanto a hóstia para a Igreja Católica. 

SÀSÁNYÌN — pronúncia correta SÁSSAN-IN — o ritual de cantar folhas. 

ODÚ — do original ODÙ — pronúncia correta ÔDÚ — caminho, destino. 

ÌYÁLÓRÌSÀ — pronúncia correta IYÁLORIXÁ — sacerdotisa do Candomblé; mãe (no culto de) Orixá. Dirigente Feminina. 

No Sábado, que corresponde ao terceiro dia, realiza-se o ritual do Efun, a pintura da cor branca, que é feita com a nervura dendezeiro ou penas das aves. São saídas internas, feitas somente com a Ìyàwó de cabeça baixa e toda pintada de branco. Sai com o Ekódíde e o Osù, fazendo Pawó em frente à porta de entrada e aos atabaques. O Odíde é um pássaro sagrado por ser o único animal que fala. A sua pena vermelha é usada no sentido de lembrar o sangue menstrual da fertilização e dar o poder de abrir a fala da Ìyàwó. 

Uma Ìyàwó nunca fica sozinha. É sempre acompanhada pela mãe-criadeira, que é a sua responsável. Na quarta-feira, é o dia da pintura do wàji e do Osùn, respectivamente, as cores azul e vermelha. Essas saídas Efun são realizadas com a Ìyàwó manifestada com o seu Òrìsà. 

Essas pinturas representam uma forma de proteção e fechamento de corpo, impedindo que os pássaros das Àjé, as feiticeiras, pousem em sua cabeça. 

Um cântico tradicional, ainda cantado na África por ocasião de ritos 

semelhantes. A cor azul representa a bondade; a vermelha, boas notícias e a branca, a paz. 

Nos intervalos, a mãe-criadeira procura saber o que a Ìyàwò sonhou, como está a sua reação. Algumas restrições são exigidas: comer com as mãos, sentar só no chão e, para ser atendida, fazer o Pawó, bater palmas. Essas proibições serão atenuadas após o Pana(n), que se revestirá da quebra destas e de outras kizilas impostas. 

EFUN — pronúncia correta ÉFUN — tintura branca, de origem mineral, feita com a nervura do dendezeiro. Pintura feita na Ìyàwó. 

EKÓDÍDE — alguns chamam IKÓDÍDE — pronúncia correta ÉKÔDIDÉ — pena vermelha do pássaro chamado Odíde. 

PAWÓ — pronúncia correta PAUÓ — bater palmas. 

ÒDÍDE — pronúncia correta ÔDÍDÉ — pássaro sagrado que possui pena vermelha. É um pássaro sagrado por ser o único anima que fala. 

WÁJI — pronúncia correta UÁJÍ — tintura azul de origem mineral. Pintura feita na Ìyàwó. 

OSÙN — pronúncia correta ÔSSUN — tintura vermelha de origem mineral. Pintura feita na Ìyàwó. 

AJÉ — do original ÀJÉ — o mesmo que Eleiye. São as Ìyámin. A Ajé-Mãe mais conhecida é Iyá-Mi-Oxorongá. IYAMI OSHORONGÁ — também chamada ÌYÁ-MI — v. Iyá-Mi Oxorongá — (ancestrais femininos cultuados coletivamente; é a representação do poder feminino expresso na possibilidade de gerar filhos). As temíveis feiticeiras. As Grandes Mães. As Iyá-Mi são a representação das mulheres ancestrais. Todas as Grandes Mães que passaram pela terra integram o corpo das Ìyá-Mi. 

PANA — pronúncia correta PANAN (vogal precedida de N) — quebra de kizilas; o final do castigo. PANA(N) vem de PA ÌNA(N). 

O Ìyàwó participara dos rituais, em alguns casos acordada e em outros necessariamente virada com o seu Òrìsà. Em seu confinamento, aprende as danças, rezas, o modo de se comportar. É ensinado o repertório do seu Òrìsà, com as cantigas que lhe estão associadas, como também a do grupo do qual fará parte. Passa a conhecer a hierarquia do terreiro, seus deveres e obrigações. É o tempo do Kélè, um colar que se ajusta ao pescoço para lembrar-lhe sua condição de iniciante e suas severas restrições. 

A Ìyàwó recolhida usará o Sàworo, uma pulseira feita de palha-da-costa trançada, com guizos, e usada no tornozelo. Ele a acompanhará em todo o processo de iniciação, possibilitando revelar onde a pessoa se encontra, principalmente nos momentos de Erè, um tipo de entidade infantil que se apossa da pessoa para atenuar a rigidez do recolhimento. Revela os mitos, que foi uma forma de Yemojá saber onde Omolu se encontrava, quando se escondia nos pântanos, envergonhado das doenças de seu corpo. 

Após a iniciação haverá mais outras três obrigações: de 1, 3 e 7 anos, que complementarão o seu aprendizado, deixando, então, de ser Ìyàwó, para ser Ègbónmi. Sábado, o 17° dia, será a cerimônia do Orúko Ìyàwó, literalmente, o dia em que será revelado o nome iniciático. 

KELE — colar que se ajusta ao pescoço para lembrar à Ìyàwó a sua condição de iniciante e suas severas restrições. 

SÁWORO OU SÀWORO — pronúncia correta XÁUÔRÔ — é um trançado de palha-da-costa com guizos, usado no tornozelo, símbolo de Omolu. Segundo alguns é também usado no tornozelo para afastar os espíritos de Àbìkú que tentam buscá-lo, lembrando-lhe a data de sua volta. 

ERE — pronúncia correta ÊRÊ — segundo alguns vem do original ERE e segundo outros, vem do yorubá ÌYERE (logo, a pronúncia deveria ser IÊRÊ, grifo nosso) — entidade infantil ligada a todos os Orixás. É uma vibração especial dos Orixás; é o mediador entre o iaô, o babalaô e um Orixá. O iaô recebe Erê tomando a vibração infantil ordenada. 

YEMOJÁ — pronúncia correta YEMANJÁ (deveria ser YEMONJÁ — vogal precedida de M - grifo nosso) — Orixá do mar. O nome Iemanjá, ou seja, Yemojá deriva de Yèyé omo ejá que vem de iya: "mãe"; omo: "filho"; eja: "peixe" e que quer dizer "Mãe cujos filhos são peixes". Na África Iemanjá é a Rainha dos Rios; daí é o Orixá que em terra yorubá é patrona de dois rios: o rio Yemonja e o rio Ògún — não confundir com o Orixá Ògún, Deus do ferro. Daí Yemonja estar associada à expressão Odò Iyá, ou seja, "Mãe dos Rios". 

OMOLU — pronúncia correta OMÓLÚ — Omolu é uma flexão dos termos: Omo= filho; Oluwô= senhor. Omolu quer dizer "filho e senhor”. 

Ègbónmi significa, minha irmã mais velha ou meu irmão mais velho. É uma saudação que se transformou em título indicativo de precedência. 

ORÚKO ÌYÀWÓ — pronúncia correta ÔRUKÓ IAÔ — é o dia em que será revelado o nome iniciático. ORÚKO = nome iniciático; ÌYÀWÓ = adepto do Candomblé que ainda não completou os a Ìyàwó, sentada num banquinho, sofrerá nova raspagem e haverá um novo sacrifício animal. Já com o seu santo assentado, acompanhado das contas e o Mokan, símbolo da iniciação, será dado o Àse da fala, com um pombo e a pena do pássaro Òdíde. 

À noite será a cerimônia pública, com três aparições, sendo que algumas casas o fazem com quatro apresentações. A primeira saída vem de branco em homenagem a Òsàlá, a segunda com roupas coloridas, e a terceira com roupa de gala de seu Òrìsà, trazendo suas insígnias. É denominada saída rica. Será na última apresentação que o Òrìsà dará o nome pela boca da Ìyàwó. É o Ojó Orúko, ou seja, o dia do nome. Cada Òrìsà tem características particulares, mesmo sendo o mesmo Òrìsà com a mesma qualidade; porém, trata-se de energias diferentes, com dosagens diferentes. 

Todo Òrìsà tem sua adoração especial, e então tem um nome para se 

diferenciar dos demais. Para isto, é convidada uma pessoa proeminente da religião para tomar-lhe o nome. Ela recebe uma sineta, Àdjà, o símbolo do poder e da autoridade. Num rápido passeio pelo salão com a Ìyàwó, agitando o Àdjà, lhe pergunta o seu nome, por três vezes, e ela responde após uma volta por si mesma. Será este o seu novo nome, e que é recebido com palmas e com a presença de outros Òrìsà. 

A Ìyàwó é agora um falcão, com o poder das alturas, que a distanciarão dos perigos. É um dos objetivos da iniciação. 

A seguir, nesta mesma noite, as Ìyàwó irão trocar de roupa e levar o carrego, Erù Ìyàwó, de suas obrigações. É o carrego final para a fertilização da terra, pois no Candomblé nada se perde. É o Erùpin. Verger revela que, na África, quem dá o nome é a própria pessoa que realizou a iniciação. Em outros tempos, nos Candomblés, era desta forma que o nome era anunciado. 

ÀDJÀ — pronúncia correta AJÁ — sineta, símbolo do poder e da autoridade. 

ERÙ ÌYÀWÓ — pronúncia correta ERÚ IAÔ — é o carrego das obrigações da Ìyàwó. ERÙ = carrego; ÌYÀWÓ = pronúncia correta IAÔ — adepto do Candomblé que ainda não completou os 7 anos de iniciação. Iniciada, Iniciado. 

É o ERÙPIN, de ERÙ = carrego e PIN = final. Ou seja, é o carrego ou ritual final, que será deixado em local determinado pelo jogo. Ao sair com o carrego coberto por um pano branco e levado na cabeça, as luzes são apagadas, e cantam: 

Erù pin — o carrego ou ritual final 

E rù dà— você carrega silenciosamente 

Dá níse — sozinha e cansada 

Bó re adá— libertando-se dele 

Erù pin o 

E rù dà 

Dá níse 

Bó re adá 

Ao retornarem cantam: 

A se ma re lé — vocês surgem e tornam-se realidade 

O kú àbó òde — saudamos seu retorno, bem-vindos 

Ilé okun lè — a casa tem a força de que vocês precisam. 

Retornam com as luzes acesas, e todos cantam para Òsàlá. No dia seguinte, domingo, será o ritual do Pana(n), de Pa e ìna(n) — o castigo final. Num ambiente informal e descontraído, as proibições — Èwò, que anteriormente eram imperativas, são atenuadas. 

ÈWÒ — pronúncia correta ÊUÓ — coisa proibida. Proibição, regra, preceito; o mesmo que quizila. Tudo aquilo que provoca uma reação contrária ao axé, dá-se o nome de kizila ou èwò, ou à volta à consciência normal com um reaprendizado dos gestos da vida comum. Assim, todos imitam atividades diversas, como costurar, varrer, lavar, capinar, etc. Ficam em estado de Ere, do yorubá Ìyere, uma divindade encantada de características infantis, uma forma de descontração após dezessete dias de rígida disciplina. Ela será maior com a retirada de Kele, três meses após, ou antes, dependendo de suas atividades normais. 

Trata-se de uma cerimônia particular, podendo haver festa, contanto que o ritual seja privativo. 

Uma pessoa, quando sai da iniciação, não é mais a mesma. Ela é modificada, por força de certas restrições que lhe foram determinadas. Por exemplo, o que comia antes já não pode comer mais. Comer manga e abacaxi faz o sangue ficar quente, e isto pode não ser bom para a pessoa. Carne de porco e de caça pode vir a ser problema. São kizilas que trarão problemas para o corpo. Outros tipos de kizila são determinados pelo respeito. Não comer abóbora é explicado pelo mito que revela que ela é a representação do primeiro ventre que pariu o primeiro ser. Se comer abóbora estará comendo a barriga da mãe ancestral. Outras são as kizilas solidárias, ou seja, o respeito à kizila da Ìyálórísà, ou de seus irmãos-de-barco. Kizilas de cor, não usar pano xadrez ou vermelho, tudo isto vem pelo fato de que o Òrìsà tudo determina, pois é ele que usa o corpo conforme os seus desejos. Uma kizila infringida quebra a força que o Òrìsà botou na pessoa. 

Como dissemos, as próximas etapas serão as obrigações de um, três e sete anos, que de certa forma poderão ter o seguinte andamento: 

1 ano — 3 dias de recolhimento, no mínimo: Ebo, Bori, oferendas secas e bichos de pena. Não leva Ekódíde, nem Osù e não raspa. 

3 anos — uma semana de recolhimento: Ebo, Bori, oferendas secas, animais de duas e quatro patas, cantam-se folhas nos três, sete e dezesseis dias. 

7 anos — uma semana de recolhimento (varia de asè para asè); mesmas obrigações anteriores, usa o Kele de sua iniciação e faz resguardo de 21 dias. Após esta obrigação terá algumas regalias, como a de ter Oyè, um título que qualificará suas funções. Ele pode ser com função restrita a um Òrìsà, ou pertinente aos atos da sociedade, de um modo geral. 

Alguns exemplos de Oyè: 

Afikode — posto no quarto de Òsóòsì. 

Àjímúdà — posto no quarto de Omolu. 

Apokan — posto no quarto de Omolu. 

Balógun — posto no quarto de Ògún. 

Elémòsó — posto no quarto de Òsàgiyán. 

Ìgbàlè — posto no quarto de Yánsàn. 

Kaweó — posto no quarto de Òsányìn. 

Ogalá — posto no quarto de Òsàlá. 

Sobalóju — posto no quarto de Sàngó. 

Ìyá Efun — a mãe do branco, a responsável pela pintura. Geralmente, são filhos de Òsàlá. 

Ìyá Síhà — significa seguir em direção a um caminho, sendo ela quem conduz o estandarte de Òsàlá. 

Ìyá Égbé — mãe da sociedade, com funções de conselheira, de manter a ordem e a tradição. 

Ìyábàsè — responsável pela cozinha, de Sè = cozinha. 

Sárepégbé — aquele que leva os convites e recados a outros Candomblés, de sáre = correr, 

– convidar, égbé – sociedade. 

Ìyáláse — zeladora do Àse. 

Tojúomo — aquela que olha pelas crianças, de Ojú – olhar, Omo – criança. 

Akòwé — responsável pelas compras, literalmente, escritora, secretária. 

Ìyámórò — responsável pela cuia do Ìpàdé, de mú – pegar, orò – obrigação. 

Alágbè — tocador de atabaque, de alá – dono, agbè – cabaça. 

Asògún — o que sacrifica os animais, literalmente, aquele a quem foi outorgado o Àse de Ògún. 

Todos os trabalhos são feitos em cima de determinadas propriedades do corpo, sendo seu reduto principal o Orí, ou seja, a cabeça. Ele representa todo o Àse que uma pessoa possui. É a essência da sorte e a mais importante força responsável pelo sucesso. A sobrevivência do ser humano depende do Orí e de quem mexe nele. 

Existem pessoas que têm as seguintes características: 

Owó Àjé — mão de feitiço 

Owó Burú— mão ruim 

Owó Ìkú —mão da morte 

Owó Rere —a boa mão, a mão da sorte. 

A grande tarefa de quem vai se iniciar é buscar a casa cuja dirigente tenha a mão da sorte e da felicidade — Owó Rere. Para detectá-la, basta verificar o terreiro, o dia-a-dia de sua dirigente e a situação das pessoas que lá se encontram. Devem ser considerados dois pontos: a iniciação não promove ninguém à riqueza financeira, embora não seja descartada esta hipótese; segundo, ter uma boa mão não está relacionada ao conhecimento, embora as duas condições sejam o ideal. Esta preocupação inicial é fundamental para que não ocorra desilusão na escolha e a pessoa, posteriormente, entre na rotina de ficar pulando de Casa em Casa, e a sua cabeça rolando de mão em mão. 

A ciência dos ritos, e em especial a iniciação, tem como base o sacrifício como meio de despertar energias para uma afinidade. 

O orí, que nós chamamos de cabeça e que contém a individualidade e o destino, desaparece com a morte, pois é único e pessoal, de modo que ninguém herda o destino de outro. Cada vida será diferente, mesmo com a reencarnação. 

Um Orí possui cinco pontos de real importância para os ritos do Candomblé: 

Ìpakó —a nuca 

Iwájú Orí —a testa 

Apá Òtún —fronte do lado direito 

Apá Òsì —fronte do lado esquerdo 

Àwùje— o alto e centro da cabeça, onde é feito o Gbéré. 

Existe uma relação entre os Àbìkú e os Ibéji; um não quer ficar no mundo, o outro vem em forma dupla. Quem é Àbìkú não pode ser raspado e nem raspar ninguém. Não joga e nem coloca as mãos nos búzios. aquele que nasce para morrer. Pessoas que sobreviveram a situações perigosas no nascimento, como os nascidos com o cordão umbilical em volta do pescoço, os que nasceram com os pés, os abandonados recém-nascidos e os que ficaram órfãos ao nascer, etc. São duas as interpretações: a criança que, ao nascer a ãe morre; a criança que morre ao nascer em partos sucessivos. O ideal iorubá do renascimento é às vezes tão extremamente exagerado, que alguns espíritos nascem e em seguida morrem somente pelo prazer de rapidamente poder nascer de novo. 

São os chamados ABIKUS (literalmente, nascido para morrer). 

Segundo alguns, o Sáworo é um trançado de palha-da-costa com guizos, usado no tornozelo, símbolo de Omolu. Em seguida, coloca-se uma cabaça aberta pela metade, emborcada na cabeça da pessoa, onde serão feitas as pinturas, banhos e demais preceitos. Toda essa técnica é realizada de madrugada por haver maior concentração de energia. 

Em linhas gerais, a cabeça é a principal divindade de uma pessoa devido ao seu relacionamento com o destino e sua sorte. O seu poder pode ser assim definido: 

“Orí eni ni mu ‘ni j’oba” - A cabeça de uma pessoa faz dela um rei. 

É a principal parte do ser humano. Geralmente vem primeiro ao mundo, abrindo caminho para trazer o resto do corpo. É através do Orí que nos alimentamos e nos comunicamos, sendo a sede da consciência e dos principais sentidos físicos. Pela sua importância, encarregou a um antigo Òrìsà, Àjàlá, a tarefa de moldar o Orí com barro da melhor qualidade fornecido por Òsàlá. Entretanto, como nem sempre os Orí saiam com perfeição desejada, Olódùmarè ordenou a Òrúnmìlà que ensinasse aos seres humanos como restabelecer o equilíbrio necessário em suas cabeças. Assim, nasceu a cerimônia do Bori. O conceito de Orí é básico para explicar acontecimentos que de outra forma seriam incompreensíveis, como a morte súbita, sofrimentos e boa sorte. 

As diferentes cerimônias realizadas no corpo de um iniciado possuem relação direta com os conceitos da criação divina. A cultura yorubá que deu o modelo de Candomblé Kétu no Brasil entende o ser humano como uma composição de elementos físicos e extra-físicos assim definidos, que explicam a razão do que até aqui foi explicado. 

ORÍ ENI NI MU ‘NI J’OBA — pronúncia correta ÔRÍ ENÍ NÍ MÚ NÍ JÓBÁ — expressão que quer dizer “A cabeça de uma pessoa faz dela um rei”. 

ÀJÀLÁ — pronúncia correta AJÁLÁ — antigo Orixá encarregado da tarefa de moldar o Orí 

com barro da melhor qualidade fornecido por Oxalá. 

OLÓDÙMARÈ — pronúncia correta ÔLÔDUMARÊ — o deus Supremo. O mesmo que Olórum. 

ÒRÚNMÌLÀ — pronúncia correta ORUNMILÁ — deus criador do oráculo de Ifá. A testemunha do Destino. 

INICIAÇÃO NO CANDOMBLÉ KÉTU 


O sacerdócio e organização dos ritos para o culto dos Òrìsàs são complexos, com todo um aprendizado que administra os padrões culturais de transe, pelo qual os deuses se manifestam no corpo de seus iniciados durante as cerimônias para serem admirados, louvados, cultuados. 

Os iniciados, filhos e filhas-de-santo (ìyàwó), em linguagem ritual, também são popularmente denominados "cavalos dos deuses" uma vez que o transe consiste basicamente em mecanismo pelo qual cada filho ou filha se deixa cavalgar pela divindade, que se apropria do corpo e da mente do iniciado, num modelo de transe inconsciente bem diferente daquele do kardecismo, em que o médium, mesmo em transe, deve sempre permanecer atento à presença do espírito. O processo de se transformar num "cavalo" é ser assim sumariados: 

Para começar, a mãe-de-santo deve determinar, através do jogo de búzios, qual é o Òrìsà dono da cabeça daquele indivíduo (Braga, 1988). Ele ou ela recebe então um fio de contas sacralizado, cujas cores simbolizam o seu Òrìsà, dando-se início a um longo aprendizado que acompanhará o mesmo por toda a vida. A primeira cerimônia privada a que a noviça (abíyán) é submetida consiste num sacrifício votivo à sua própria cabeça (borí), para que a cabeça possa se fortalecer e estar preparada para algum dia receber o Òrìsà no transe de possessão. Para se iniciar como cavalo dos deuses, a abíyán precisa juntar dinheiro suficiente para cobrir os gastos com as oferendas (animais e ampla variedade de alimentos e objetos), roupas cerimoniais, utensílios e adornos rituais e demais despesas suas, da família-de-santo, e eventualmente de sua própria família durante o período de reclusão iniciática em que não estará, evidentemente, disponível para o trabalho no mundo profano. 

Como parte da iniciação, a noviça permanece em reclusão no terreiro por um número em torno de 21 dias. Na fase final da reclusão, uma representação material do Òrìsà do iniciado (assentamento ou igbáòrìsà) é lavada com um preparado de folhas sagradas trituradas. 

No Candomblé sempre estão presentes o ritmo dos tambores, os cantos, a dança e a comida (Motta, 1991). Uma festa de louvor aos Òrìsà (toque) sempre se encerra com um grande banquetecomunitário (ajeum), que significa "vamos comer", preparado com carne dos animais sacrificados. O novo filho ou filha-de-santo deverá oferecer sacrifícios e cerimônias festivas ao final do primeiro, terceiro e sétimo ano de sua iniciação. No sétimo aniversário, recebe o grau de senioridade (Ègbónmi), que significa "meu irmão mais velho"), estando ritualmente autorizado a abrir sua própria casa de culto. Cerimônias sacrificiais são também oferecidas em outras etapas da vida, como no vigésimo primeiro aniversário de iniciação. Quando um iniciado morre, rituais fúnebres (axexê) são realizados pela comunidade para que o Òrìsà fixado na cabeça durante a primeira fase da iniciação possa desligar-se do corpo e retornar ao mundo paralelo dos deuses (Orun) e para que o espírito da pessoa morta (egún) liberte-se daquele corpo, para renascer um dia e poder de novo gozar dos prazeres deste mundo. 

Fonte: Livro o Culto dos Orixás

AS FASES DE UMA INICIAÇÃO NO CANDOMBLÉ YORUBÁ



Iyawo: São os novos iniciados de Orixá da Casa de Candomblé, durante o período de sete anos, e serão subordinados pelas pessoas de Cargos/Posto da casa. E deve obediência aos seus mais velhos. E deverão concluir suas obrigações de 1, 3 e 7 anos. Ser Iyawo, além de outros preceitos, é permanecer recolhido por um período de 21 dias, passando por doutrinas e fundamentos, para conceber a força do Orixá. Saem da vida material e nascem na vida espiritual com um novo nome orùnkò. O Mòócan e os Delègún são os comprovantes e o diploma do iniciado.

Obrigação de um ano (Odueta) ou (odú Kíní): É às obrigações muito importantes é considerada como fim do resguardo do Iyawo após sua iniciação. Somente esta obrigação dará ao iniciado à liberdade de viver materialmente sem restrições na sociedade e no seu convívio familiar e pessoal. Até fazer um ano de feitura ou pagar sua obrigação de um ano (odú Kíní), ainda terá algumas restrições (ewo temporário. como cortar cabelo, tomar banho de mar e outros. Será feita na obrigação de um ano de feitura, uma nova festa para comemorar a data onde serão oferecidos comida ritual, frutas e flores.

Obrigação de três anos (Oduetá): Esta obrigação é considerada a confirmação da continuidade do iniciado no Axé, e já está autorizado a conceber o seu ajuntó, e a começar ser liberado e graduado pelo seu babalorixá, a usar fios com Seguis e Bràjà dependendo do Orixá, e poderá deixar de usar Mòócan e Delègún. (conforme orientação do babalorixá) 

Outra obrigação é feita aos três anos de feitura (odú kétà), algumas casas ou nações fazem também uma de cinco anos, mas no candomblé ketu considera-se um ano, três e sete anos. Ele ou ela permanecerá como Iaô até completar os sete anos de feitura e fazer a obrigação de sete anos (odu ejé).

Obrigação de sete anos (Oduijé) ou Odu ejé (a pronúncia do acento é fechada): É uma das maiores obrigações de uma casa de Candomblé, que todos os iniciados serão obrigados a tomar sem exceção. Com essa obrigação o iniciado poderá receber posto, cargo, titulo e direitos de independência do seu babalorixá.

Só quando fizer a obrigação de sete anos Odu ejé é que será considerado um Egbomi (um irmão(a) mais velho). 

A obrigação de sete anos é tão grande e importante quanto a feitura, nessa obrigação é que será definido se o Egbomi irá abrir uma casa ou não. A Iyalorixá entregará para o Egbomi no ato da festa seus pertences (jogo de búzios, pembas, favas, sementes, tesoura, navalha, tudo que vai precisar para iniciar Iaôs) no Ketu é chamdo Odu Ijê com Oyê, em outras nações é chamado de Deká, Peneira, Cuia, etc.

Caso o Orixá da pessoa não queira abrir uma casa e queira continuar na roça da Iyalorixá, o Orixá depositará os objetos recebidos nos pés da Iyalorixá e sua filha não abrirá uma casa, continuará na roça onde normalmente receberá um posto para ajudar a Iyalorixá. 

Quando o Orixá aceita a Egbomi receberá todas as homenagens dos presentes pois está sendo consagrada como uma nova Iyalorixá se for homem Babalorixá. Nesse caso terá que providenciar uma casa para onde será levado seu Orixá e iniciar um novo Ile axé. 

OIYE – quer dizer titulo independência, são pessoas que já tomaram seus sete anos e necessitam de um TITULO dado pelo seu babalorixá, para ser independente e Zelador (a) de Orixás, sacerdócio. Esse Oiye pode ser também um cargo na casa do babalorixá onde fez a obrigação. 

DEKA – é autorização (direitos) de conduzir a sua própria casa de Candomblé, atendimento de seus adeptos e consulentes, jogar búzios, tirar ebós e iniciar pessoas no Orixá, ou Vodum dependendo da nação etc.. Na nação Jeje receberá um Húnjèbé é o Titulo de sacerdócio exclusivo da nação Jeje e um amuleto do Egbònme, é o diploma dado pelo Voduno para dar continuidade do aprendizado dos fundamentos dos Voduns.

segunda-feira, 14 de maio de 2012

VIDEOS EM HOMENAGEM AOS PRETOS VELHOS



PRETOS-VELHOS


Pretos-Velhos 


História 

As grandes metrópoles do período colonial: Portugal, Espanha, Inglaterra, França, etc; subjugaram nações africanas, fazendo dos negros mercadorias, objetos sem direitos ou alma. 

Os negros africanos foram levados a diversas colônias espalhadas principalmente nas Américas e em plantações no Sul de Portugal e em serviços de casa na Inglaterra e França. 

Os traficantes coloniais utilizavam-se de diversas técnicas para poder arrematar os negros: 

Chegavam de assalto e prendiam os mais jovens e mais fortes da tribo, que viviam principalmente no litoral Oeste, no Centro-oeste, Nordeste e Sul da África. 

Trocavam por mercadoria: espelhos, facas, bebidas, etc. Os cativos de uma tribo que fora vencida em guerras tribais ou corrompiam os chefes da tribo financiando as guerras e fazendo dos vencidos escravos. 

No Brasil os escravos negros chegavam por Recife e Salvador, nos séculos XVI e XVII, e no Rio de Janeiro, no século XVIII. 

Os primeiros grupos que vieram para essas regiões foram os bantos; cabindos; sudaneses; iorubás; geges; hauçá; minas e malês. 

A valorização do tráfico negreiro, fonte da riqueza colonial, custou muito caro; em quatro séculos, do XV ao XIX, a África perdeu, entre escravizados e mortos 65 a 75 milhões de pessoas, e estas constituiam uma parte selecionada da população. 

Arrancados de sua terra de origem, uma vida amarga e penosa esperava esses homens e mulheres na colônia: trabalho de sol a sol nas grandes fazendas de açúcar. Tanto esforço, que um africano aqui chegado durava, em média, de sete a dez anos! Em troca de seu trabalho os negros recebiam três "pês": Pau, Pano e Pão. E reagiam a tantos tormentos suicidando-se, evitando a reprodução, assassinando feitores, capitães-do-mato e proprietários. Em seus cultos, os escravos resistiam, simbolicamente, à dominação. A "macumba" era, e ainda é, um ritual de liberdade, protesto, reação à opressão. As rezas, batucadas, danças e cantos eram maneiras de aliviar a asfixia da escravidão. A resistência também acontecia na fuga das fazendas e na formação dos quilombos, onde os negros tentaram reconstituir sua vida africana. Um dos maiores quilombos foi o Quilombo dos Palmares onde reinou Ganga Zumba ao lado de seu guerreiro Zumbi (protegido de Ogum). 

Os negros que se adaptavam mais facilmente à nova situação recebiam tarefas mais especializadas, reprodutores, caldeireiro, carpinteiros, tocheiros, trabalhador na casa grande (escravos domésticos) e outros, ganharam alforria pelos seus senhores ou pelas leis do Sexagenário, do Ventre livre e, enfim, pela Lei Áurea. 

A Legião de espíritos chamados "Pretos-Velhos" foi formada no Brasil, devido a esse torpe comércio do tráfico de escravos arrebanhados da África. 

Estes negros aos poucos conseguiram envelhecer e constituir mesmo de maneira precária uma união representativa da língua, culto aos Orixás e aos antepassados e tornaram-se um elemento de referência para os mais novos, refletindo os velhos costumes da Mãe África. Eles conseguiram preservar e até modificar, no sincretismo, sua cultura e sua religião. 

Idosos mesmo, poucos vieram, já que os escravagistas preferiam os jovens e fortes, tanto para resistirem ao trabalho braçal como às exemplificações com o látego. Porém, foi esta minoria o compêndio no qual os incipientes puderam ler e aprender a ciência e sabedoria milenar de seus ancestrais, tais como o conhecimento e emprego de ervas, plantas, raízes, enfim, tudo aquilo que nos dá graciosamente a mãe natureza. 

Mesmo contando com a religião, suas cerimônias, cânticos, esses moços logicamente não poderiam resistir à erosão que o grande mestre, o tempo, produz sobre o invólucro carnal, como todos os mortais. Mas a mente não envelhece, apenas amadurece. 

Não podendo mais trabalhar duro de sol a sol, constituíram-se a nata da sociedade negra subjugada. Contudo, o peso dos anos é implacavelmente destruidor, como sempre acontece. 

O ato final da peça que encarnamos no vale de lágrimas que é o planeta Terra é a morte. Mas eles voltaram. A sua missão não estava ainda cumprida. Precisavam evoluir gradualmente no plano espiritual. Muitos ainda, usando seu linguajar característico, praticando os sagrados rituais do culto, utilizados desde tempos imemoriais, manifestaram-se em indivíduos previamente selecionados de acordo com a sua ascendência (linhagem), costumes, tradições e cultura. Teriam que possuir a essência intrínseca da civilização que se aprimorou após incontáveis anos de vivência. 

Formação da Falange dos Pretos-Velhos na Umbanda 

Depois de mortos, passaram a surgir em lugares adequados, principalmente para se manifestarem. Ao se incorporarem, trazem os Pretos-Velhos os sinais característicos das tribos a que pertenciam. 

Os Pretos-velhos são nossos Guias ou Protetores, mas no Candomblé, são considerados Eguns (almas desencarnadas), e decorrente disso, só têm fio de conta (Guia) na Umbanda. Usam branco ou preto e branco. Essas cores são usadas porque, sendo os Pretos-Velhos almas de escravos, lembram que eles só podiam andar de branco ou xadrez preto e branco, em sua maioria. Temos também a Guia de lágrima de Nossa Senhora, semente cinza com uma palha dentro. Essa Guia vem dos tempos dos cativeiros, porque era o material mais fácil de se encontrar na época dos escravos, cuja planta era encontrada em quase todos os lugares. 

O dia em que a Umbanda homenageia os Pretos-Velhos é 13 de maio, que é a data em que foi assinada a Lei Áurea (libertação dos escravos). 

O Nomes dos Pretos-Velhos 

Há muita controvérsia sobre o fato de o nome do Preto-Velho ser uma miscelânea de palavras portuguesas e africanas. Voltemos ao passado, na época que cognominamos "A Idade das Trevas" no Brasil, dos feitores e senhores, senzalas e quilombos, sendo os senhores feudais brasileiros católicos ferrenhos (devido à influência portuguesa) não permitiam a seus escravos a liberdade de culto. Eram obrigados a aprender e praticar os dogmas religiosos dos amos. Porém eles seguiram a velha norma: contra a força não há resistência, só a inteligência vence. Faziam seus rituais às ocultas, deixando que os déspotas em miniatura acreditassem estar eles doutrinados para o catolicismo, cujas cerimônias assistiam forçados. 



As crianças escravas recém-nascidas, na época, eram batizadas duas vezes. A primeira, ocultamente, na nação a que pertenciam seus pais, recebendo o nome de acordo com a seita. A segunda vez, na pia batismal católica, sendo esta obrigatória e nela a criança recebia o primeiro nome dado pelo seu senhor, sendo o sobrenome composto de cognome ganho pela Fazenda onde nascera (Ex.: Antônio da Coroa Grande), ou então da região africana de onde vieram (Ex.: Joaquim D'Angola). 

O termo "Velho", "Vovô" e "Vovó" é para sinalizar sua experiência, pois quando pensamos em alguém mais velho, como um vovô ou uma vovó subentendemos que essa pessoa já tenha vivido mais tempo, adquirindo assim sabedoria, paciência, compreensão. É baseado nesses fatores que as pessoas mais velhas aconselham. 

No mundo espiritual é bastante semelhante, a grande característica dessa linha é o conselho. É devido a esse fator que carinhosamente dizemos que são os "Psicólogos da Umbanda". 


Eis aqui, como exemplo, o nome de alguns Pretos-Velhos: 

Pai Cambinda (ou Cambina), Pai Roberto, Pai Cipriano, Pai João ,Pai Congo, Pai José D'Angola, Pai Benguela, Pai Jerônimo, Pai Francisco, Pai Guiné, Pai Joaquim, Pai Antônio, Pai Serafim, Pai Firmino D'Angola, Pai Serapião, Pai Fabrício das Almas, Pai Benedito, Pai Julião, Pai Jobim, Pai Jobá, Pai Jacó, Pai Caetano, Pai Tomaz, Pai Tomé, Pai Malaquias, Pai Dindó, Vovó Maria Conga, Vovó Manuela, Vovó Chica, Vovó Cambinda (ou Cambina), Vovó Ana, Vovó Maria Redonda, Vovó Catarina, Vovó Luiza, Vovó Rita, Vovó Gabriela, Vovó Quitéria, Vovó Mariana, Vovó Maria da Serra, Vovó Maria de Minas, Vovó Rosa da Bahia, Vovó Maria do Rosário, Vovó Benedita. 



Obs: Normalmente os Pretos-Velhos tratados por Vovô ou Vovó são mais “velhos” do que aqueles tratados por Pai, Mãe, Tio ou Tia). 



Atribuições 

Eles representam a humildade, força de vontade, a resignação, a sabedoria, o amor e a caridade. São um ponto de referência para todos aqueles que necessitam: curam, ensinam, educam pessoas e espíritos sem luz. Não têm raiva ou ódio pelas humilhações, atrocidades e torturas a que foram submetidos no passado. 

Com seus cachimbos, fala pausada, tranqüilidade nos gestos, eles escutam e ajudam àqueles que necessitam, independentes de sua cor, idade, sexo e de religião. São extremamente pacientes com os seus filhos e, como poucos, sabem incutir-lhes os conceitos de karma e ensinar-lhes resignação 

Não se pode dizer que em sua totalidade esses espíritos são diretamente os mesmos Pretos-Velhos da escravidão. Pois, no processo cíclico da reencarnação passaram por muitas vidas anteriores foram: negros escravos, filósofos, médicos, ricos, pobres, iluminados, e outros. Mas, para ajudar aqueles que necessitam escolheram ou foram escolhidos para voltar a terra em forma incorporada de Preto-Velho. Outros, nem negros foram, mas escolheram como missão voltar nessa pseudo-forma. 

Outros foram até mesmo Exus, que evoluíram e tomaram as formas de um Pretos-Velhos. 

Este comentário pode deixar algumas pessoas, do culto e fora dele, meio confusas: "então o Preto-Velho não é um Preto-Velho, ou é, ou o que acontece???". 

Esses espíritos assumem esta forma com o objetivo de manter uma perfeita comunicação com aqueles que os vão procurar em busca de ajuda. 

O espírito que evoluiu tem a capacidade de assumir qualquer forma, pois ele é energia viva e conduzente de luz, a forma é apenas uma conseqüência do que eles tenham que fazer na terra. Esses espíritos podem se apresentar, por exemplo, em lugares como um médico e em outros como um Preto-Velho ou até mesmo um caboclo ou exu. Tudo isso vai de acordo com o seu trabalho, sua missão. Não é uma forma de enganar ou má fé com relação àqueles que acreditam, muito pelo contrário, quando se conversa sinceramente, eles mesmos nos dizem quem são, caso tenham autorização. 

Por isso, se você for falar com um Preto-Velho, tenha humildade e saiba escutar, não queira milagres ou que ele resolva seus problemas, como em um passe de mágica, entenda que qualquer solução tem o princípio dentro de você mesmo, tenha fé, acredite em você, tenha amor a Deus e a você mesmo. 

Para muitos os Pretos-Velhos são conselheiros mostrando a vida e seus caminhos; para outros, são pisicólogos, amigos, confidentes, mentores espirituais; para outros, são os exorcistas que lutam com suas mirongas, banhos de ervas, pontos de fogo, pontos riscados e outros, apoiados pelos exus desfazendo trabalhos. Também combatem as forças negativas (o mal), espíritos obssessores e kiumbas. 



A Mensagem dos Pretos-Velhos 

A figura do Preto-Velho é um símbolo magnífico. Ela representa o espírito de humildade, de serenidade e de paciência que devemos ter sempre em mente para que possamos evoluir espiritualmente. 

Certa vez, em um centro do interior de Minas, uma senhora consultando-se com um Preto-Velho comentou que ficava muito triste ao ver no terreiro pessoas unicamente interessadas em resolver seus problemas particulares de cunho material, usando os trabalhos de Umbanda sem pensar no próximo e, só retornavam ao terreiro, quando estavam com outros problemas. O Preto-Velho deu uma baforada com seu cachimbo e respondeu tranquilamente: "Sabe filha, essas pessoas preocupadas consigo próprias, são escravas do egoísmo. Procuramos ajudá-las, resolvendo seus problemas; mas, aquelas que podem ser aproveitadas, depois de algum tempo, sem que percebam, estarão vestidas de roupa branca, descalças, fazendo parte do terreiro. Muitas pessoas vem aqui buscar lã e saem tosqueadas; acabam nos ajudando nos trabalhos de caridade". 

Essa é a sabedoria dos Pretos-Velhos... 

Os Pretos-Velhos levam a força de Deus (Zambi) a todos que queiram aprender e encontrar uma fé. Sem ver a quem, sem julgar, ou colocando pecados. Mostrando que o amor a Deus, o respeito ao próximo e a si mesmo, o amor próprio, a força de vontade e encarar o ciclo da reencarnação podem aliviar os sofrimentos do karma e elevar o espírito para a luz divina. Fazendo com que as pessoas entendam e encarem seus problemas e procurem suas soluções da melhor maneira possível dentro da lei do dharma e da causa e efeito. 

Eles aliviam o fardo espiritual de cada pessoa fazendo com que ela se fortaleça espiritualmente. Se a pessoa se fortalece e cresce consegue carregar mais comodamente o peso de seus sofrimentos. Ao passo que se ela se entrega ao sofrimento e ao desespero enfraquece e sucumbe por terra pelo peso que carrega. Então cada um pode fazer com que seu sofrimento diminua ou aumente de acordo como encare seu destino e os acontecimentos de sua vida: 

"Cada um colherá aquilo que plantou. Se tu plantaste vento colherás tempestade. Mas, se tu entenderes que com luta o sofrimento pode tornar-se alegria vereis que deveis tomar consciência do que foste teu passado aprendendo com teus erros e visando o crescimento e a felicidade do futuro. Não sejais egoísta, aquilo que te fores ensinado passai aos outros e aquilo que recebeste de graça, de graça tu darás. Porque só no amor, na caridade e na fé é que tu podeis encontrar o teu caminho interior, a luz e DEUS" (Pai Cipriano). 

Características: 

Linha e Irradiação 

Todos os Pretos-Velhos vem na linha de Obaluaiê, mas cada um vem na irradiação de um Orixá diferente. 

Fios de Contas (Guias) 

Muitos dos Pretos-Velhos Gostam de Guias com Contas de Rosário de Nossa Senhora, alguns misturam favas e colocam Cruzes ou Figas feitas de Guiné ou Arruda. 

Roupas 

Preta e branca; carijó (xadrez preto e branco). As Pretas-Velhas às vezes usam lenços na cabeça e/ou batas; e os Pretos-Velhos às vezes usam chapéu de palha. 

Bebida 

Café preto, vinho tinto, vinho moscatel, cachaça com mel (às vezes misturam ervas, sal, alho e outros elementos na bebida). 

Dia da semana: Segunda-feira 

Chakra atuante: básico ou sacro 

Planeta regente: Saturno 

Cor representativa: preto e branco; 

Saudação: Cacurucaia (Deve sempre ser respondida com “Adorei as Almas”) 

Fumo: cachimbos ou cigarros de palha. 

Obs: Os Pretos-Velhos às vezes usam bengalas ou cajados. 

Cozinha Ritualística 

Tutu de feijão preto 

Mingau das almas 

É um mingau feito de maizena e leite de vaca (às vezes com leite de coco), sem açúcar ou sal, colocado em tigela de louça branca. É comum colocar-se uma cruz feita de fitas pretas sobre esse mingau, antes de entregá-lo na natureza. 

Bolinhos de tapioca 

Os bolinhos de tapioca são feitos colocando-se a tapioca de molho em água quente (ou leite de coco, se preferir), de modo a inchar. Quando inchado, enrole os bolinhos em forma de croquete e passe-os em farinha de mesa crua. Asse na grelha. 

Colocar os bolinhos em prato de louça branca podendo acrescentar arruda, rapadura, fumo de rolo, etc. 

Obs: Nas sessões festivas de Pretos-Velhos, é usual servir a tradicional feijoada completa, feita de feijão preto, miúdos e carne salgada de boi, acompanhada de couve à mineira e farofa. 

Formas Incorporativas E Especialidade Dos Pretos-Velhos: 



Sua forma de incorporação é compacta, sem dançar ou pular muito. A vibração começa com um "peso" nas costas e uma inclinação de tronco para frente, e os pés fixados no chão. Se locomovem apenas quando incorporam para as saudações necessárias (atabaque, gongá, etc...) e depois sentam e praticam sua caridade (Podemos encontrar alguns que se mantém em pé). 

É possível ver Pretos-Velhos dançando, mais esse dançando é sutíl, e apenas com movimentos dos ombros quando sentados. 

Essa simplicidade se expande, tanto na sua maneira de ser e de falar. Usam vocabulário simples, sem palavras rebuscadas. 

A linha é um todo, com suas características gerais, ditas acima, mas diferenças ocorrem porque os Pretos-Velhos são trabalhadores de orixás e trazem para sua forma de trabalho a essência da irradiação do Orixá para quem eles trabalham. 

Essas diferenças são evidenciadas na incorporação e também na maneira de trabalhar e especialidade deles. Para exemplificar, separaremos abaixo por Orixás: 

Pretos-Velhos De Ogum 

São mais rápidos na sua forma incorporativa e sem muita paciência com o médium e as vezes com outras pessoas que estão cambonando e até consulentes. 

São diretos na sua maneira de falar, não enfeitam muito suas mensagens, as vezes parece que estão brigando, para dar mesmo o efeito de "choque", mais são no fundo extremamente bondosos tanto para com seu médium e para as outras pessoas. 

São especialistas em consultas encorajadoras, ou seja, encorajando e dando segurança para aqueles indecisos e "medrosos". É fácil pensar nessa característica pois Ogum é um Orixá considerado corajoso. 


Pretos-Velhos De Oxum 

São mais lentos na forma de incorporar e até falar. Passam para o médium uma serenidade inconfundível. 

Não são tão diretos para falar, enfeitam o máximo a conversa para que uma verdade dolorosa possa ser escutada de forma mais amena, pois a finalidade não é "chocar" e sim, fazer com que a pessoa reflita sobre o assunto que está sendo falado. 

São especialistas em reflexão, nunca se sai de uma consulta de um Preto-Velho de Oxum sem um minuto que seja de pensamento interior. As vezes é comum sair até mais confuso do que quando entrou, mas é necessário para a evolução daquela pessoa. 

Pretos-Velhos De Xangô 

Sua incorporação é rápida como as de Ogum. 

Assim como os caboclos de Xangô, trabalham para causas de prosperidade sólida, bens como casa própria, processo na justiça e realizações profissionais. 

Passam seriedade em cada palavra dita. Cobram bastante de seus médiuns e consulentes. 

Pretos-Velhos De Iansã 

São rápidos na sua forma de incorporar e falar. Assim como os de Ogum, não possuem também muita paciência para com as pessoas. 

Essa rapidez é facilmente entendida, pela força da natureza que os rege, e é essa mesma força lhes permite uma grande variedade de assuntos com os quais ele trata, devido a diversidade que existe dentro desse único Orixá. 

Geralmente suas consultas são de impacto, trazendo mudança rápida de pensamento para a pessoa. São especialistas também em ensinar diretrizes para alcançar objetivos, seja pessoal, profissional ou até espiritual. 

Entretanto, é bom lembrar que sua maior função é o descarrego. É limpar o ambiente, o consulente e demais médiuns do terreiro, de eguns ou espíritos de parentes e amigos que já se foram, e que ainda não se conformaram com a partida permanecendo muito próximos dessas pessoas. 


Pretos-Velhos De Oxossi 

São os mais brincalhões, suas incorporações são alegres e um pouco rápidas. 

Esses Pretos-Velhos geralmente falam com várias pessoas ao mesmo tempo. 

Possuem uma especialidade: A de receitar remédios naturais, para o corpo e a alma, assim como emplastros, banhos e compressas, defumadores, chás, etc... São verdadeiros químicos em seus tocos. - Afinal não podiam ser diferentes, pois são alunos do maior "químico" - Oxossi. 

Pretos-Velhos De Nanã 

São raros, sua maneira de incorporação é de forma mais envelhecida ainda. Lenta e muito pesada. Enfatizando ainda mais a idade avançada. 

Falam rígido, com seriedade profunda. Não brincam nas suas consultas e prezam sempre o respeito, tanto do médium quanto do consulente, e pessoas a volta como: cambonos e pessoas do terreiro em geral e principalmente do pai ou da mãe de santo. 

Cobram muito do seu médium, não admitem roupas curtas ou transparentes. Seu julgamento é severo. Não admite injustiça. 

Costumam se afastar dos médiuns que consideram de "moral fraca". Mais prezam demais a gratidão, de uma forma geral. Podem optar por ficar numa casa, se seu médium quiser sair, se julgar que a casa é boa, digna e honrada. 

É difícil a relação com esses guias, principalmente quanto há discordância, ou seja, não são muito abertos a negociação no momento da consulta. 

São especialistas em conselhos que formem moral, e entendimento do nosso karma, pois isso sem dúvida é a sua função. 

Atuam também como os de Inhasã e Obaluaiê, conduzindo Eguns. 

Pretos-Velhos De Obaluaiê 

São simples em sua forma de incorporar e falar. Exigem muito de seus médiuns, tanto na postura quanto na moral. 

Defendem quem é certo ou quem está certo, independente de quem seja, mesmo que para isso ganhem a antipatia dos outros. 

Agarram-se a seus "filhos" com total dedicação e carinho, não deixando no entanto de cobrar e corrigir também. Pois entendem que a correção é uma forma de amar. 

Devido a elevação e a antiguidade do Orixá para o qual eles trabalham, acabam transformando suas consultas em conselhos totalmente diferenciados dos demais Pretos-Velhos. Ou seja, se adaptam a qualquer assunto e falam deles exatamente com a precisão do momento. 

Como trabalha para Obaluaiê, e este é o "dono das almas", esses Pretos-Velhos são geralmente chefes de linha e assim explica-se a facilidade para trabalhar para vários assuntos. 

Sua "visão" é de longo alcance para diversos assuntos, tornando-os capazes de traçar projetos distantes e longos para seus consulentes. Tanto pessoal como profissional e até espiritual. 

Assim exigem também fiel cumprimento de suas normas, para que seus projetos não saiam errado, para tanto, os filhos que os seguem, devem fazer passo a passo tudo que lhes for pedido, apenas confiando nesses Pretos-Velhos. 

Gostam de contar histórias para enriquecer de conhecimento o médium e as pessoas a volta. 

Pretos-Velhos De Yemanjá 

São belos em suas incorporações, contudo mantendo uma enorme simplicidade. Sua fala é doce e meiga. 

Sua especialidade maior é sem dúvida os conselhos sobre laços espirituais e familiares. 

Gostam também de trabalhar para fertilidade de um modo geral, e especialmente para as mulheres que desejam engravidar. 

Utilizando o movimento das ondas do mar, são excelentes para descarregos e passes. 

Pretos-Velhos De Oxalá 

São bastante lentos na forma de incorporar, tornam-se belos principalmente pela simplicidade contida em seus gestos. 

Raramente dão consulta, sua maior especialidade é dirigir e instruir os demais Pretos-Velhos. Cobram bastante de seus médiuns, principalmente no que diz respeito a prática de caridade, bom corpontamento moral dentro e fora do terreiro, ausência de vícios, humildade; enfim o cultivo das virtudes mais elevadas.

referencia: Sociedade Espiritualista Mata Virgem