sexta-feira, 24 de agosto de 2012

Òsanyìn PARTE I


Aproveitamos que essa semana, nossa casa festejará o grande Pai das folhas juntamente como Iroko, para falar um pouco sobre sua história e sua importância dentro do Candomblé.

Òsanyìn é representado por uma ferramenta de ferro forjado, constituída basicamente de uma haste circundada por outras seis, tendo no mastro principal um pássaro. A sacralização da ferramenta/igbá de Òsanyì
n exige do sacerdote um profundo conhecimento das folhas litúrgicas do Candomblé e das recitações mágicas, a fim de "trazer" Òsanyìn ao igbá. Sem dúvidas, o Asè de Òsanyìn é um dos maiores segredos do culto aos Òrìsàs. 
Òsanyìn é originário de Ìràwò, ao contrário do que muitos pensam, é um Òrìsà masculino, sendo erroneamente chamado de "Osanha". O Pai das folhas vive no âmago da floresta ao lado de Àrònì, que também é um exímio conhecedor dos segredos da flora selvagem. Usa um cachimbo feito da casca de "igbin" (caracol) e gosta muito de otí òyìbó (gim) e oyìn (mel). Sempre carrega nas mãos uma rama de Pèrègùn. Suas vestimentas são feitas de Ìkó (palha da costa), folhas e Àdó (pequenas cabaças). 
Òssanyìn é o dono das folhas e, no Candomblé, não fazemos nada sem folhas. Isso já mostra a importância singular de Òsanyìn na nossa religião.

Abaixo, transcrevemos uma antiga história de Ifá, que narra como Òsanyìn se tornou um herbanário:

Ifá foi consultado para Òsanyìn no dia em que Olódùmarè cobriu uma cabaça e convidou a Òrúnmìlà ir descobrir-la e através da consulta ao oráculo, adivinhar o que havia dentro dela. Òsanyìn insistiu em acompanhar Òrúnmìlà, mesmo sendo aconselhado a ficar porque ele estava em dificuldade. Òsanyìn, porém, foi inflexível. Antes que eles chegassem lá, Olódùmarè tocou o sangue de sua esposa com um tecido branco de algodão, guardou em uma cabaça sobre a esteira na qual Òrúnmìlà sentaria ao consultar Ifá. Òrúnmìlà consultou Ifá e disse exatamente o que havia dentro da cabaça branca. Olódùmarè o louvou, aclamando seu poder. Òrúnmìlà, então, pediu que Olódùmarè realizasse um sacrifício. Olódùmarè concordou com o sacrifício. Òsanyìn, emocionadamente se juntou a Òrúnmìlà na procura dos materiais para o sacrifício. Enquanto estava se esforçando para ajudar a realizar o sacrifício, a faca que ele estava segurando escapou de sua mão e caiu sobre a sua perna, fazendo uma ferida muito grande. Òrúnmìlà pediu que levassem Òsanyìn para a casa de Òrúnmìlà. Òrúnmìlà o curou, mas Òsanyìn não poderia usar novamente a perna para trabalhos árduos. Òrúnmìlà teve pena dele e deu-lhe vinte folhas de Ifá para cada tipo de enfermidade, para proporcionar-lhe uma fonte de renda. Foi assim que Òsanyìn se tornou um herbolário e, posteriormente, aprofundando-se na farmacopéia.

Na próxima postagem sobre Òsanyìn, vamos falar porque jamais devemos entrar na mata de mãos vazias, sem pagar à Òsanyìn pelas folhas que pegamos em sua morada.

Que Òsùmàrè Arákà esteja sempre olhando e abençoando todos!!!
Ilé Òsùmàrè Aràká Àse Ògòdó

quarta-feira, 22 de agosto de 2012

Àbíkú PARTE II


Na matéria anterior, abordamos um pouco sobre o Àbíkú, esclarecendo que antes mesmo de nascer, eles realizam um pacto para regressar brevemente ao Òrun, após sua estadia no Aye.

Contudo, esses pactos podem ser quebrados por intermédio do Sacerdote, que por meio do jogo, averigua como proceder para fazer com que essas crianças permaneçam o maior tempo possível aqui no Aye.


Toda a nossa religião está fundamentada nos Itans de Ifá (Histórias do Deus do Oráculo). abaixo, transcrevemos um Itan que elucida a importância das oferendas para que os Àbíkú permaneçam no aiyé e não voltem ao Egbé Òrun Àbíkú.

"A dificuldade atinge repentinamente alguém;
Ifá é consultado para llere
Que é o filho de Obirin Abata (mulher pântano)
llere diz que vai ao mundo
Diz que se ele chegar ao mundo
Diz que toda a comida que lhe derem
Ele diz, ele não a comerá
Ele diz, (esta) dádiva ele a comerá no céu
Ele diz, todas as coisas que quiserem lhe dar
Diz que não as aceitará
Ele diz, (estes presentes) no céu ele os aceitará
Diz que não há coisas que o possam reter
Quando ele chegar no mundo
Esta criança é capaz de não morrer assim?
Ha! Dizem, eles (os pais) farão uma oferenda, ele não vai morrer
Eles dizem, a menos que eles não tenham um vaso novo
Eles dizem que eles tenham todas as coisas que a boca come
Que eles tenham um tecido vermelho
Eles dizem, que ele tenha uma tampa de panela, osun, sabão, esponja
Eles dizem quando eles tiverem oferecido tudo isso
Eles dizem que o colocarão rio abaixo
Eles dizem que lá estão seus companheiros que o vão chamar e matar
Eles dizem, é lá que eles vão ficar
Quando eles tiverem prontos, trarão as coisas para oferecer
Quando eles trouxerem estas oferendas
Seus companheiros o esperarão e não o verão chegar
Eles irão ao local pantanoso
No lugar onde se reúnem para se dizer adeus
Eles começarão a chamá-lo
Eles chamarão llere Ô! llere Ô!
Para que eles lhes responda
Ele diz, assim os babalawos disseram
A dificuldade encontra alguém de repente
A desgraça cai sobre alguém
Ifá é consultado para llere
Que é filho de Obirin Abata
Ele diz, quem chama Ilere
Ele tem braços fortes, pés fortes
Eles ouvem, eles dizem ah!
Seus companheiros não vêm ainda
Eles voltam Sua família fez oferendas
Ele não vai morrer
Se é um Àbíkú
Motivo pelo qual esses Àbíkú vão ao riacho
Ou olham o muro
Ou vão ao monte de estrume
Se os Àbíkú chegam
E dizem que têm dor de cabeça
Seus companheiros vêm pegá-lo
Mas, aqueles para quem foram feitas as oferendas
Não abandonarão mais as pessoas 
A história mostra que, diante das oferendas prescritas Ilere poderá permanecer no convívio com os seus pais, sem regressar ao Egbe Orun, para ficar com os demais Àbíkú.

Isso mostra-nos que, apesar do pacto realizado no Orùn, o Babalòrìsà/Ìyálòrìsà por meio da consulta ao oráculo, pode ajudar a criança Àbíkú a permanecer no aye, realizando oferendas específicas com esse objetivo.

Esperamos ter contribuído um pouco para o esclarecimento desse importante tema dentro do Candomblé.

Que Òsùmàrè Arákà esteja sempre olhando e abençoando todos!!!
Ilé Òsùmàrè Aràká Àse Ògòdó

terça-feira, 21 de agosto de 2012

Você já ouviu falar em Orunmila?


Òrúnmìlà é considerado irmão de Olórun, antes de ser chamado de Òrúnmilá, a grande Divindade do Destino era chamada de Ela, a denominação Òrúnmìlà, advém de "Olórun Mo Ela", ou seja, "Olórun reconhece Ela". Abaixo, transcrevemos uma história que fala sobre o assunto:

"Ela era o irmão menor de Olórun, o Deus do céu, que era um comerciante que viajava largamente e negociava muito com escravos. Uma vez, Ela enviou suas crianças para bem longe para negociar com mercadorias e, quando elas alcançaram a fronteira entre o céu e a terra, os escravos de Olórun caíram sobre elas e as despojaram de suas mercadorias. 

Quando Ela ouviu isso, perguntou quem estava roubando as propriedades dele, que estavam com seus filhos? Pegou seu arco e suas flechas e partiu com outros filhos, seus empregados e seus escravos rumo à fronteira entre o céu e a terra. Quando se encontraram, começaram a lutar. 

Todo mundo na terra foi em ajuda de Ela, mas a batalha continuava. No sétimo dia caiu uma pesada chuva batendo em ambos os lados, e ambos se retiraram. No dia seguinte, os seguidores de Ela estenderam suas roupas para secarem e os seguidores de Olórun espalharam suas camisas e turbantes. 

Olórun sentou-se numa cadeira olhando para Ela à distância, e Ela ficou mirando para Olórun, seu irmão mais velho. Nenhum deles reconheceu o outro, afinal, Ela era muito jovem quando Olórun deixou sua casa, mas quando Olórun reconheceu seu irmão, foi até ele e o abraçou. Comeram e beberam juntos, e no dia seguinte, anunciaram que não haveria mais combates. 

Enquanto os seguidores de Ela ainda retornavam para a terra, encontravam gente que continuava a chegar a fim de ajudá-los, perguntando-lhe porque já voltavam tão cedo. E então replicavam: "Olórun reconheceu Ela ontem" ("Olórun Mo Ela Lana"), e, desde então, Ela foi chamado de Òrúnmìlà".

Òrúnmìlà é considerado o segundo de Olodúnmarè (Deus), como bem diz um excerto de um Òríkì: "Òrúnmìlà, Elérí Ìpín, Ibìkéjì Olódúnmarè" (Òrúnmìlà, o testemunha do destino, o vice de Olodúnmarè). Para se chegar à Olodúnmarè é necessária a intervenção de Òrúnmìlà ou Èsù (O Òrìsà do Dinamismo) e isso ocorre por meio da Consulta ao Oráculo.

De certo modo, todas as Divindades são dependentes de Òrúnmìlà, é através da consulta ao oráculo que sabemos o que os Òrìsàs desejam comer, vestir, falar, etc. Quando um consulente/omo Òrìsà quer saber como agradar seu Deus, é através de Orunmila, no Jogo de Búzios ou jogo de Ifá, que ele terá essa resposta. Òrúnmilá é o senhor que tudo sabe e que tudo vê, seja no Òrún (céu) seja no Àiyé (terra).

Que Òsùmàrè Arákà esteja sempre olhando e abençoando todos!!!
Ilé Òsùmàrè Aràká Àse Ògòdó

Àbíkú PARTE I - CASA DE OXUMARÊ


Àbíkú PARTE I


Na incessante busca de esclarecer o nosso povo sobre os costumes da nossa religião, vamos falar hoje sobre Àbíkú.

Àbíkú é como chamamos as crianças que nascem para morrer. No Candomblé, acreditamos que quando uma mãe dá à luz a uma criança morta, ou quando uma criança morre precocemente ela é chamada de Àbíkú. 


Cremos que no Òrun, exista uma comunidade chamada "Egbé Òrun Àbíkú" (comunidade das crianças que nascem para morrer). O Egbé Òrun Àbíkú é liderado por Ìyájanjàsá e por Oloiko. Ìyájanjàsá é responsável pelo grupo de meninos que vivem no Egbé Òrun e Oloiko é responsável pelas meninas.

Acreditamos que essas crianças antes de virem ao aiyé (mundo) passam no Òrun pelo "Onibodé Òrun", que pode ser traduzido como "o porteiro do céu". Diante do Onibodé, elas fazem uma espécie de convenção, acordando quanto tempo elas passarão no aiyé até que voltem para o Òrun. Algumas dizem que voltarão ao Egbé logo que nascerem, outras assim que completarem sete anos de vida, outras logo após serem amamentadas e assim por diante.

Em função desse pacto, é fundamental que o sacerdote realize através da consulta à Ifá, oferendas que visem "quebrar" esse acordo que fora feito no Egbé Òrun junto ao Onibodé. É necessário, que ainda grávida, a mãe inicie os cuidados com a criança que está por vir ao mundo, os preceitos a serem realizados são determinados por Ifá. 

Durante toda a vida, o Àbíkú deverá realizar sacrifícios intentando intervir sua partida ao Egbé Òrun. A escolha do nome dessas crianças é realizada de modo que o significado "prenda-a" no aiyé. Em suma, são nomes que enaltecem a criança e que ilustram a importância da sua permanência no aiyé, tais como "Aiyélagbe" (não parta), "Dúrójaiyé" (fique para "gozar a vida"), "Dúrósomo" (fique para ter filhos), "Kòkúmó" (não morra mais) etc. 

Os Itans de Ifá nos ensina que, devemos pendurar nos tornozelos das crianças pequenos guizos chamados "saworo" para afastar as crianças que estão no aiyé, daquelas que ficaram no Egbé Òrun. Também são confeccionados òndè (espécie de patuá) que são carregados pelas crianças, a fim de afastar a morte. As mães também devem realizar sacrifícios de modo que não voltem a ter novos "Egbé". Para o Candomblé, uma mãe que tem filhos Àbíkú, foi estigmatizada por Eleriko e por isso também deve realizar oferendas específicas, objetivando "romper" esse carma.

Não devemos confundir "Àbíkú" (as crianças que nascem para morrer) com "Àbíasè". No candomblé, quando uma grávida está iniciando-se no culto aos Deuses Africanos, a sua criança quando nascer, será chamada de Àbíasè, ou seja, "a criança que nasceu no asè". Não se trata de uma criança "feita no Òrìsà" ou "Àbíkú", mas sim, uma criança que nasceu no culto e que num dado momento de sua vida, passará por rituais específicos de iniciação.

Na próxima abordagem sobre Àbíkú, vamos falar sobre a importância das oferendas para que os Àbíkú permaneçam no Aiye, prolongando ao máximo a sua partida para o Òrun.

Que Òsùmàrè Arákà esteja sempre olhando e abençoando todos!!!
Ilé Òsùmàrè Aràká Àse Ògòdó

sexta-feira, 17 de agosto de 2012

Òrìsà Usa Máscara?


Preocupados com o rumo das vestimentas do Candomblé, já publicamos no passado uma nota de forma abrangente sobre esse tema. Hoje especificamente, vamos abordar um pouco a questão de uma nova cultura, que emergiu nos últimos anos, o uso de máscaras nas vestes dos Òrìsàs. Antes de tudo, é importante frisamos que, em momento algum estamos querendo impor nossos costumes às demais c
asas. Mas, por outro lado, estamos expondo nossa opinião, haja vista termos centenas de casas descendentes da nossa e que, muitas vezes, não tiveram a oportunidade de presenciar uma cerimônia na Casa de Òsùmàrè e poder ver como vestimos nossos Deuses, sendo que não tiramos fotos de Òrìsàs.

Temos notado, principalmente, a utilização de máscaras em Obaluwaiye, o Grande Òrìsà da Terra, o que consideramos algo inconcebível, primeiramente por essa Divindade utilizar o Azen (dialeto fongbe). Mas afinal, porque não utilizar a máscara, como observamos em número crescente nos últimos anos?

Na cultura dos Òrìsà, as máscaras possuem um papel muito importante e muito específico, qual seja: Representar a Ancestralidade, seja feminina (Gélédé), seja masculina (Egúngún). Ao usarmos uma máscara, estamos privando as pessoas da nossa imagem, revelando a imagem do ancestral (Gélédé ou Egúngún). Assim sendo, ao vestirmos um Òrìsà com uma máscara, estamos fazendo o mesmo, ou seja, escondendo a imagem de um Deus (o Òrìsà), revelando a imagem de um Ancestral. Ao vestir o Òrìsà com uma máscara, apresentando-o em público, é como levar à sala, a imagem do próprio ancestral (guardada as devidas proporções). É importante recordarmos, ainda, que os Òrìsàs (a maioria), foram divinizados quando ainda viviam, ou seja, jamais serão ancestrais, mas sim, Seres Divinizados.

Novamente, esclarecemos que o Terreiro de Òsùmàrè não deseja em momento algum impor seus costumes religiosos. Entretanto, como uma Casa de Candomblé Tradicional e formadora de opinião, quer elucidar algo que muitas vezes ocorre pela falta de conhecimento e não por maldade.

Que Òsùmàrè Arákà esteja sempre olhando e abençoado todos!!!
Ilé Òsùmàrè Aràká Àse Ògòdó

Sasanyin


Na Casa de Òsùmàrè, há uma particularidade singular nas obrigações denominadas Oro, que de forma veemente remete-nos à liturgia Yorùbá, seguindo o mesmo Modus Operandi da terra na qual o Culto aos Òrìsàs nasceu, evocando por meio de rezas, cânticos, Orikis e Ofós, todos os elementos que posteriormente serão utilizados.

Assim sendo, à exemplo do que ocorre na África, todas as substâncias
chamadas transformadoras de Asè, basicamente elementos da natureza, como, por exemplo, as folhas, são evocados de maneira que seus poderes sejam “despertados” e potencializados, para que então possam ser utilizados. Esse ritual, de importância sem-par no culto aos Òrìsàs, denomina-se Sasanyin.

No Terreiro de Òsùmàrè, a Sasanyin precede a imolação. Os membros do egbe (comunidade), liderados pelo seu Sacerdote, entoam cânticos sagrados, objetivando emanar de cada elemento o seu poder mágico e, somente após terem sido devidamente consagrados e fortalecidos pela magia, são utilizados. 
Nesse âmbito, há uma infinidade de cantigas, que não somente enunciam o nome da folha em yòrúba e o seu poder, seja de cura, seja de transformação, mas também evocam os poderes da água, dos animais, etc.

Dessa forma, no Terreiro de Òsùmàrè, bem como na África, acredita-se que para sacralizar os objetos de culto, ou mesmo revitalizar os assentos dos Deuses com o sangue oriundo do reino animal, é necessário que antes, todos os demais elementos sejam “encantados”, por meio das Sasanyin. Essa ideia é fortalecida ao observar a cultura yorùbá, onde crê-se que antes de qualquer ritual, é necessário que todos os elementos sejam encantados por meio dos chamados ofo.

Na cultura yorùbá, os elementos sem encantamento são somente elementos comuns. Para conseguirmos extrair todos os poderes das folhas, elas deverão ser encantadas antes de serem manipuladas. O mesmo ocorre com os animais, com os Okuta (pedras) e tantas outras importantes sustâncias, como o mel, o azeite de dendê, Waji, Osun, etc.

Por essa razão, mantemos viva essa tradição da mesma forma como nossos antepassados faziam. Antes de usarmos, sejam as folhas, sejam os animais, nós os evocamos para que ele possam se comunicar com os Deuses.

Que Òsùmàrè Arákà esteja sempre olhando e abençoando todos!!!
Ilé Òsùmàrè Aràká Àse Ògòdó

obrigação de sete anos


Na última década houve um exacerbado aumento de Sacerdotes no Candomblé, sobretudo, aqueles que se tornaram Ìyálòrìsàs/Babalòrìsàs, imediatamente após terem concluído sua obrigação de sete anos. Mas será que somente a obrigação de sete anos outorga a um iniciado o direito ao sacerdócio? A resposta é não, vejamos por que.

Criou-se nos últimos tempos, o indevido paradigma de que ao completar a obri
gação de sete anos, o iniciado poderá instaurar o exercício do sacerdócio. Fato é que o sacerdote não nasce quando do término da sua obrigação de sete anos, mas muito antes, quando do seu nascimento. Na rica e bela cultura dos Òrìsàs, acreditamos que trazemos para o Aye (terra), a missão de nossas vidas acordada ainda no Orùn (céu). Em linhas gerais, isso quer dizer que a pessoa traz a missão de se tornar um sacerdote já no seu nascimento, isso está cravado irreversivelmente no seu destino, eles são os Omo Bibi (os bem nascidos).

Dessa forma, as pessoas que são “consagradas sacerdotes”, somente por terem completado o ciclo de sete anos, mas que não traz impresso no seu destino essa missão, poderá causar sério prejuízo a si mesmo e, principalmente aos seus seguidores. 

Um Sacerdote de Òrìsà, além de obviamente zelar pela Divindade, zela pelos filhos dessas Divindades, ou seja, o sacerdote cuida de pessoas. É muito importante destacar esse ponto: “O Sacerdote cuida de Òrìsàs, de Pessoas. Ele cuida de Cabeças”. Nesse sentido, vale salientar que a obrigação de sete anos é um passo muito importante na vida de qualquer Omo Òrìsà e condição sine qua non para um futuro sacerdote, mas não é a obrigação de sete anos que tornará um Omo Òrìsà em sacerdote. Isso deve ser claro a todos.

Mas se não é a obrigação de sete anos que outorga o sacerdócio a um iniciado o que é então? Como dito acima, isso está impresso na memória ancestral daquele indivíduo, ele traz consigo essa missão do Orùn, que será revelada por meio do oráculo ou por voz pessoal do Òrìsà. Em uma primeira leitura, isso pode parecer utópico, no entanto, vamos lembrar a consagração sacerdotal de alguns dos mais importantes nomes do Candomblé.

A reverenciada Ìyálòrìsà do Opo Afonjá, Mãe Senhora de Òsun, recebera a navalha que fora de sua avó Ìyá Oba Tosí, ainda na sua iniciação, sendo que sua Ìyálòrìsà Mãe Aninha, anteviu que ela seria uma sacerdotisa. A querida Ìyálòrìsà do Gantois, Mãe Menininha, foi consagrada Ìyálòrìsà pelos Deuses, que a escolherem e a sentaram no trono do Ile Iya Omi Ase Iyamase, sem a interferência humana. Na nossa casa, o Terreiro de Òsùmàrè, nosso amado Pai Pecê, foi indicado como futuro Babalòrìsà logo no seu nascimento, sendo carregado no barracão pelo Òrìsà Ògún de sua Avó, a inesquecível Mãe Simplícia.

Não queremos em momento algum, dizer que a consagração dos sacerdotes deve ocorrer nos parâmetros mencionados, mas queremos sim dizer que é necessária uma consulta muito acurada ao jogo de búzios, questionando aos Òrìsàs se aquela pessoa realmente deverá ser consagrada sacerdote. É preciso saber se aquela pessoa realmente foi escolhida pelos Òrìsàs para ser um Babalòrìsà ou Ìyalòrìsà, isso é algo muito sério.

Aqui em Salvador, por exemplo, há muitos Egbon (Omo Òrìsà com suas obrigações de 7 anos completadas, mas não consagrados sacerdotes). Esses Egbon, antiguíssimos e de conhecimento requintado da Religião dos Òrìsàs não se tornaram Babalòrìsàs/Ìyálòrìsàs por um único motivo, a saber: Não carregam nos seus destinos essa missão. Esses antigos são felizes por serem Egbon, são felizes por zelar pelos Òrìsàs na casa onde foram iniciados. São felizes por serem consultados pelos mais novos, sobre as histórias do povo antigo. São felizes por dizer: “Eu sou egbon da Casa A ou B”. 

Quando questionados por muitos a razão de não serem Babalòrìsàs/Ìyálòrìsàs, eles imediatamente respondem: “Oh meu filho, eu não nasci com essa missão não, minha missão é ajudar a casa onde eu me iniciei”. Alguns inconformados reiteram: “Mas com tanto saber, você tinha que ser sacerdote”. Esses antigos Egbon, por sua vez, no elevado grau de sabedoria, acumulada ao longo de anos, finalizam a conversa dizendo: “Oh meu filho, saber é o de menos, é preciso nascer para ser”...

Que Òsùmàrè Arákà esteja sempre olhando e abençoando todos!!!
Ilé Òsùmàrè Aràká Àse Ògòdó