segunda-feira, 9 de julho de 2012

MEDIUNIDADE DE CURA POR RAMATIS - PARTE 8

Os impedimentos que prejudicam os
efeitos das medicações espíritas 


PERGUNTA: - Em nossas pesquisas sobre o serviço mediúnico intuitivo na seara espírita, por vezes chegamos ao desânimo, tal a incerteza e a improdutividade de certos trabalhos, que não ultrapassam o nível comum dos próprios médiuns. Que dizeis disso? 

RAMATÍS: - Os médiuns, já o dissemos, atualmente ainda significam a cota de sacrifício atuando na vanguarda da divulgação da imortalidade da alma e do intercâmbio entre vivos e mortos. No futuro, o animismo improdutivo, as confusões freudianas, a associação de idéias, o histerismo, o automatismo psicológico e outros óbices indesejáveis, ainda existentes no intercâmbio mediúnico atual, hão de desaparecer em face do treino e da pesquisa dos próprios cientistas simpatizantes da doutrina. 

A mediunidade evoluiu e aperfeiçoa-se, possuindo um roteiro definido para os desideratos superiores, tal qual a inteligência do homem também progride pelo exercício e o esforço incessante nos diversos setores da ciência do mundo. Inúmeras realizações técnicas e científicas que hoje deslumbram o vosso mundo, também requereram centenas de experimentos para corrigir os hiatos e as imprevisões, que existiam antes dos admiráveis padrões modernos. 

Que seria da medicina terrena, caso os seus abnegados líderes, ante os seus equívocos iniciais, desistissem de prosseguir no estudo de tal ciência? Portanto, o pessimismo, a dúvida e a indiferença prejudicam o serviço dos médiuns incipientes. 

PERGUNTA: - Quais são as dificuldades mais comuns que os espíritos terapeutas enfrentam para atender ao receituário mediúnico sob a responsabilidade do Espiritismo? 

RAMATÍS: - Em geral, o público amontoa centenas de papeletas com consultas e pedidos, na mesa do centro espírita, à última hora; sua maior porcentagem, no entanto, só indaga coisas e doenças as mais triviais. O médium receitista então fica obrigado a um trabalho árduo e ininterrupto, que o esgota na sua resistência mental-física, como ainda lhe impede perfeita sintonia psíquica com o Além. O êxito do receituário mediúnico, em massa e em horário curto, exige rapidez de ação por parte do espírito terapeuta e do seu ajuste instantâneo e harmônico ao cérebro perispiritual do médium receitista. Qualquer vacilação ou interferência imprevista entre ambos pode resultar em alteração na prescrição das receitas. 

Malgrado a tradição terrena ensinar que os espíritos desencarnados possuem o dom da ubiqüidade e podem transladar-se facilmente no mundo espiritual, superando também os obstáculos da própria matéria e visitando, ao mesmo tempo, inúmeros enfermos eqüidistantes, eles não estão aptos para prever as surpresas espirituais ou as dificuldades magnéticas durante o exame psíquico, provocados pelos próprios consultantes. Sem dúvida, os médiuns criteriosos, sob o amparo dos espíritos terapeutas e experimentados no socorro dos encarnados, chegam a cumprir um receituário mediúnico útil e compensativo. 

Mas há casos em que os enfermos a serem examinados encontram-se tão fortemente impregnados de fluidos ruinosos, resultantes de sua emotividade descontrolada ou dos seus pensamentos nocivos, que os espíritos terapeutas não logram êxito na formulação do diagnóstico perispiritual e também falham na prescrição do medicamento. Também, infelizmente, às vezes, os médiuns cercam-se de influências tão perturbadoras, que isolam completamente a faixa vibratória dos seus guias terapeutas; então receitam medicamentos inócuos, remédios exóticos ou panacéias ridículas, pois ficam sob o forte domínio do animismo incontrolável, ou então podem sintonizar-se com as entidades do baixo astral. 

Acresce, ainda, que o seu subconsciente interfere, de modo vigoroso, durante o nosso labor e intercâmbio com os encarnados, obedecendo ao próprio automatismo de defesa da personalidade humana contra a intromissão de uma vontade alheia no seu comando pessoal. E se o médium for criatura bastante onerada com dívidas pretéritas, enfrentando constantemente as vicissitudes de ordem moral e física no mundo terreno, crescem essas dificuldades, pois há médiuns que ainda bebem alcoólicos, fumam, abusam da alimentação carnívora e movimentam-se à caça de prazeres fáceis! Malgrado a sua tarefa de divulgar a realidade da vida imortal, há também os que temem a morte tal qual o homem comum. 

A fim de atender na mesma noite a centenas de receitas e aos pedidos formulados nos centros espíritas, o médium receitista precisa escrever às pressas e se fatiga facilmente no desempenho dessa tarefa incomum. 

Qualquer demora na recepção espiritual ou preocupação íntima é suficiente para o desajuste vibratório com o seu guia. E os espíritos desencarnados, por sua vez, ante os numerosos pedidos, vêem-se obrigados a cuidar com mais atenção dos apelos dos casos mais graves, enquanto se limitam a prescrever medicação contemporativa aos demais consulentes, atendendo-os apenas com o fito de não lhes causar desânimo. 

Deste modo, quase sempre predominam no receituário mediúnico as indicações de remédios de ação geral ou paliativa, tais como os reconstituintes do sangue, extratos hepáticos, xaropes, vitaminas, fortificantes dos nervos ou recalcificantes comuns, que são prescritos para os casos menos importantes, dentro do horário premente e da capacidade física do médium. E quanto às inquietações psíquicas, os espíritos restringem-se a dar conselhos confortadores e advertência espiritual ou à promessa de breve socorro. 

No entanto, apesar de os adeptos e médiuns espíritas saberem que todos os fenômenos da Criação são disciplinados por leis sensatas e imutáveis, eles parecem admitir que os desencarnados são seres miraculosos, pois exigem que eles atendam a um receituário medi único vultoso e atropelado, no tempo limitado de uma sessão espírita. 

PERGUNTA: - Quais são essas dificuldades mais comuns, que os próprios consulentes opõem aos espíritos encarregados dos diagnósticos e das prescrições de medicamentos? 

RAMATÍS: - Muitas vezes, durante o exame perispiritual, as suas poses mentais descontroladas ou censuráveis dificultam aos espíritos terapeutas conseguirem um diagnóstico correto para prescreverem a medicação adequada. 

Envoltos por fluidos, às vezes detestáveis, de vícios desregrados, eles destroem as possibilidades de êxito do socorro do Além. 

Como decorrência, os espíritos terapeutas terão de fracassar ao tentarem formular o diagnóstico do enfermo através de um perispírito sujo e oleoso, cujos fluidos grosseiros formam uma espécie de cortina opaca, intransponível. É difícil, portanto, o êxito do receituário mediúnico para beneficiar criaturas viciadas e descontroladas, cujo perispírito se apresenta escurecido e perturbado na sua fisiologia "etereoastral", delicadíssima. E caso elas não purifiquem a sua atitude mental controlando as suas emoções indisciplinadas, tornam-se completamente impermeabilizadas aos passes espíritas, à água fluidificada, à homeopatia, logrando pouco êxito até no uso de medicamentos como xaropes, injeções, comprimidos ou antibióticos. 

A medicação mais recomendável é ainda o conselho espiritual dado a esses pacientes desgovernados no seu psiquismo. Mas isso os decepciona, pois eles aguardam dos espíritos a prescrição de medicamentos miraculosos, visto não se convencerem de que os males são oriundos de seus desequilíbrios psíquicos. Alguns deles, acostumados aos fluidos enfermiços, parecem agarrar-se à doença como recurso para fugirem de suas próprias responsabilidades na vida material. 

Aborrecem-se ante qualquer admoestação do Além, desatendem a todos os convites para refletirem seriamente sobre os seus deslizes morais; e por sua culpa retardam o seu reajuste espiritual e também a própria saúde física. Convencidos de que os espíritos desencarnados devem saber tudo e disporem de poderes ilimitados para lograr sucesso terapêutico, eles não admitem qualquer dúvida ou laconismo nas respostas às suas solicitações. A melhor falha do médium ou evasiva dos espíritos serve-lhes de motivo de crítica ferrenha ao fenômeno mediúnico e de comentários desairosos sobre os postulados do Espiritismo. Ignoram que o receituário mediúnico é apenas uma contribuição secundária da doutrina espírita, uma vez que, ajudando a manter a saúde física dos seus adeptos e simpatizantes, ela busca atraí-los para se integrarem aos seus postulados sublimes de redenção espiritual. 

Decerto, também há os que são resignados e otimistas, pois alguns chegam a demonstrar heroísmo ante a doença ou a perspectiva da morte, sem qualquer revolta ou desespero. 

PERGUNTA: - Poderíeis explicar-nos melhor o caso dessas criaturas paradoxais, que não se apavoram ante as enfermidades e se resignam ante a iminência da morte? 

RAMATÍS: - É um acontecimento resultante da interferência da "voz oculta" do espírito imortal, ou seja, de sua consciência espiritual a sobrepor-se à consciência humana e fazendo o homem pressentir as vantagens e o proveito do sofrimento ou da doença grave que o acomete. 

Malgrado não poder compreender a origem do fenômeno ou justificá-lo satisfatoriamente, algo, em sua intimidade, assegura-lhe certa purificação dos seus pecados pregressos e da sua breve ventura espiritual. Há leprosos que, embora vítimas de enfermidade tão trágica, são mais resignados e pacientes do que outros enfermos de moléstias menos graves, porque eles sentem no âmago de sua alma tratar-se de um processo redentor que os aperfeiçoa para a angelitude eterna. 

Apesar de esse fugaz pressentimento ocorrer apenas em alguns segundos da existência, ou quando o espírito deixa o corpo físico, à noite, durante o sono, fica-lhe na intimidade a lembrança inapagável dos. propósitos benfeitores da vida criada por Deus. As almas pacientes e dóceis, embora sejam incultas ou' desafortunadas, sentem mais facilmente a mensagem de que o sofrimento purifica, que as vicissitudes educam e os fracassos advertem, melhorando o discernimento da consciência. 

Depois da desencarnação física, invertem-se os conceitos tradicionais da significação da vida humana, pois a morte física, que tanto apavora os encarnados, significa a jubilosa "porta aberta" para os espíritos que do "lado de cá" aguardam ansiosamente o retorno dos seus familiares queridos. Daí o paradoxo de algumas criaturas traírem a estranha satisfação que lhes vai no imo da alma, mesmo quando gravemente enfermas ou às vésperas da morte, embora ignorem que é o espírito imortal obedecendo à sua natural tendência de "fuga" do aprisionamento incômodo da carne. Algumas chegam a censurar-se por esse estranho masoquismo, em que se sentem inexplicavelmente alegres ante semelhante "infelicidade". 

Mesmo que o homem se afunde no charco da animalidade e se acorrente às paixões carnais inferiores, o seu espírito nunca cessa de forçar os liames que o prendem à carne e o impedem de atuar livremente no plano sideral. À semelhança do que acontece ao imigrante saudoso, ele rejubila-se toda vez que surge a perspectiva de regresso à pátria dos espíritos. 

Não opomos dúvida ao fato de que os homens, em sua maior porcentagem, ainda preferem fechar os ouvidos aos apelos de sua consciência espiritual, no sentido de se libertarem dos gozos efêmeros da vida instintiva animal e do culto vicioso aos tesouros do mundo de César. Mas nenhum deixa de ouvir, em sua intimidade, a voz silenciosa do espírito imortal. Mesmo aqueles que descrêem de Deus ou da alma eterna não ficam surdos ao chamamento oculto da entidade angélica. 

PERGUNTA: - Porventura esse desejo oculto de libertação espiritual não deveria existir apenas naqueles que se recordam de suas existências anteriores, ou que possuem cultura espiritual suficiente para se reconhecerem imortais? 

RAMATÍS: - Embora os encarnados não consigam recordar os acontecimentos de suas vidas passadas, devido à forte interferência dos complexos biológicos da carne sobre a memória sideral, nunca se extingue neles a ansiedade pela libertação do seu espírito. 

Assim como o exilado compulsório não trocaria todas as comodidades e distrações no seu desterro, pelas maiores contrariedades em sua pátria querida, o espírito imortal também sente-se infeliz sob o domínio estúpido das paixões da carne. 

Há momentos em que o tédio, a melancolia, o desespero e até a revolta abatem o homem de tal forma, embora ele participe de todos os prazeres da vida, que, na sua angústia insolúvel, ele recorre ao suicídio, causando espanto àqueles que o julgavam plenamente venturoso. Na verdade, em face de qualquer descuido ou invigilância da personalidade humana, a consciência espiritual reage, no sentido de sua integração na vida superior do espírito imortal. 

Muitas vezes, esse "chamado" oculto e incessante traduz-se numa angústia indefinível, que é a luta rude entre o homem-espírito e o homem-animal; luta que, nos caracteres mais fracos, pode arrastar o homem ao suicídio. Inúmeros poetas, intelectuais, filósofos, escritores, cientistas e mulheres de elevada posição social fugiram do mundo pela porta falsa dessa tragédia, justamente por faltar-lhes a firmeza na espiritualidade consciente, que então lhes compensaria o amargor de suas decepções e angústias, por maiores que elas fossem. 

Mas, assim como o balão cativo não cessa de forçar as amarras que o prendem ao solo, o espírito também emprega todos os seus esforços para libertar-se dos grilhões da matéria. Embora a consciência humana não identifique esse oculto instinto moral do espírito para ajustar-se ao padrão superior de sua vida imortal, em certas criaturas o fenômeno se traduz por uma estranha satisfação íntima, que pode manifestar-se mesmo durante a dor ou até quando se aproxima a morte física. 

PERGUNTA: - E quais são os indícios que comprovam a ansiedade ou o esforço subjetivo do nosso espírito tentando abandonar o corpo carnal e, ao mesmo tempo, angustiando-se ante a perspectiva de breve libertação da matéria? 

RAMATÍS: - Essa ansiedade espiritual raramente é certificada pela consciência humana, ou seja, pelo homem encarnado. Às vezes, ele sublima-se mesmo em face da doença ou da morte, mergulhando na saudade dos momentos felizes que passou na infância, na mocidade e também nos estados de alma que o afastaram da vida material. Nessa associação de emoções diversas, o espírito sensibiliza-se de modo incomum e mistura a alegria à tristeza, o prazer à dor e a renúncia ao apego do mundo material. Algo estranho o influi; - a melancolia ou o júbilo oculto e incompreensível, que o domina, tece-lhe na intimidade o sonho de um mundo venturoso, em que ele recorda ter vivido ou pressente que existe e tornará a reviver. 

É uma saudade indefinível, que se sobrepõe aos maiores prazeres e gozos dos sentidos físicos do homem, e, em alguns, chega a manifestar-se num verdadeiro estado de êxtase, que extingue as barreiras egocêntricas da personalidade humana. Em tais momentos, processa-se vigorosa competição entre a mente em vigi1ia, que tenta heroicamente manter o seu comando diretor no organismo carnal, enquanto a consciência espiritual forceja por fugir da matéria e retomar ao seu mundo eletivo. 

PERGUNTA: - Mas, acaso não existem certas criaturas pessimistas que, durante sua doença, mal suportam seus sofrimentos e mantêm-se sob a mais extrema irritação e rebeldia? E ainda, outras, tão rebeldes à sua purgação cármica de aperfeiçoamento espiritual, que se tornam refratárias a qualquer esperança futura? 

RAMATÍS: - Sim. Há criaturas que se requintam no apego às minúcias mórbidas que lhes dramatizam exageradamente as enfermidades de pouca importância e as vicissitudes comuns da vida humana. 

Ante o primeiro sintoma enfermiço, elas esvaziam dúzias de frascos de remédios, friccionam-se com as pomadas mais excêntricas ou viciam-se aos medicamentos injetáveis, transformando o corpo em paliteiro de agulhas hipodérmicas. Escravizadas ao relógio, vivem atentas ao curso das horas a fim de engolir, em hora exata, o comprimido contra o defluxo ou a pílula para a boa digestão. Mesmo quando em completo repouso, recorrem à injeção antiespasmódica, ao tônico cardíaco ou ao controle da pressão sanguínea. 

Ante a sua imaginação mórbida desfila o cortejo de doenças modernas da civilização. O diabetes, o enfarte cardíaco, o câncer, as úlceras ou o artritismo, transformam-se em sombras a impressionar-lhes a mente angustiada. 

Habituam-se aos exames clínicos, às chapas radiográficas, às pesquisas de laboratório e revisão periódica do corpo físico. Trocam de médicos assim como as mulheres trocam de modas, enquanto exercem a função de cobaias para o experimento de todas as drogas farmacêuticas recém-fabricadas. 

Compungidas e ingênuas, comovem-se ao descrever suas próprias desditas e lances melodramáticos do socorro médico, que à última hora salvou-as do perigoso distúrbio estomacal, da grave intoxicação hepática ou de infeccioso surto intestinal. Movimentam-se pela superfície da Terra transportando vultosa bagagem de medicamentos destinados a atender a todos os eventuais sintomas enfermiços. 

A mentalização incessante da doença estigmatiza-lhes o senso estético e o gosto pela vida; ficam apáticas e insensíveis às belezas do mundo e aos fenômenos poéticos da Natureza. Sisudas, melancólicas e introvertidas, não se animam ante a clareira de luz solar na mata agreste, nem as emociona o vôo das aves ruflando suas asas coloridas no azul transparente do céu, nem as alegram as pétalas de flores silvestres que lhes caem sobre os ombros e os cabelos. 

Nada as dissuade do seu pessimismo pertinaz e do seu infortúnio excessivamente dramatizado. Olhos baços, fisionomia compungida e lábios contraídos num ríctus de perene amargura, esses infelizes doentes da alma gostariam de transformar o mundo num vasto hospital sem fim. Não ouse alguém subestimar ou duvidar do seu drama compungido, que considera digno da pena de um Victor Hugo ou Dostoiewski. Dramatizam, transformam a mais insignificante verruga, numa excrescência cancerosa, o espirro banal e inofensivo, em prenúncio da grave pneumonia, e o simples incômodo digestivo, em uma úlcera gástrica. Enfim, cultivam a doença assim como o jardineiro cultiva a flor. 

Infelizmente, a vossa humanidade ainda ignora que a maior parte das doenças do corpo tem sua origem em distúrbios agudos de ordem psíquica; pois, na realidade, a cupidez, a avareza, o ódio, a vingança, o ciúme, a ambição, o orgulho e outros tóxicos de ordem moral são a matriz das moléstias perigosas que resultam em cânceres, morféia, tuberculose e outras, de aspectos e conseqüências fatais. 

PERGUNTA: - Naturalmente, essas pessoas agravam os seus menores males porque pensam neles incessantemente e, então, dificultam a sua cura. Não é assim? 

RAMATÍS: - "Namora a doença e te casarás com ela", diz certo provérbio do vosso mundo, aludindo a esses enfermos que fazem da doença e da morte a única preocupação da vida. Eles ignoram os postulados sadios do espiritualismo emancipado, que explicam a função purificadora da enfermidade e que o fatalismo da morte física é indispensável para desatar as algemas carnais do espírito. Muitos deles transformam-se em assíduos consultantes das sessões espíritas, à cata de pormenores minuciosos de "sua doença", pois consideram que é muito mais grave a sua dispepsia comum, do que a tuberculose da vizinha. Facilmente tornam-se adversários gratuitos do Espiritismo, quando os espíritos só se limitam a dar-lhes conselhos de ânimo espiritual, em vez de atendê-los com a prescrição de remédios miraculosos ou diagnósticos exatos de sua doença. 

Certo é que, dia mais ou dia menos, algum espírito leviano ou médium anímico e imprudente acaba por fazer-lhes o diagnóstico certo ou errado, mas perturbador e trágico; o qual, então, se constitui na derradeira gota de água a entornar o copo de simples conjetura. 

O medo, o desespero, a amargura e os pensamentos negativos gerados pelo pessimismo aniquilam as forças defensivas da mente e perturbam o sistema endocrínico, alterando o quimismo hormonal responsável pelo equilíbrio fisiológico. A perturbação mental constante atinge o sistema nervoso vago-simpático, alterando-lhe o ritmo de comando orgânico e interferindo perniciosamente na rede de neurônios sensibilíssimos, que se entranham desde o encéfalo, por lodos os tecidos e vísceras do corpo humano. Estabelecido o clima negativo, favorável à enfermidade estigmatizada pela mente, em breve se materializa na carne indefesa a doença, que ainda não passava de simples conjetura. 

PERGUNTA: - Que dizeis de certos consulentes que, abusando do tempo precioso dos médiuns, depois atiram fora a receita espírita que lhes foi doada? 

RAMATÍS: - Realmente, certos consultantes depois de agraciados com o diagnóstico mediúnico ou favorecidos com a prescrição medicamentosa capaz de curá-los de grave enfermidade ou mesmo prorrogar-lhes a vida periclitante, põem "de molho" a receita espírita para só usarem-na em caso de falharem os recursos médicos que ainda pretendem experimentar. Alguns deles agem assim porque temem o ridículo de serem curados pelos "mortos" e depois tachados de ingênuos ante os demais companheiros. Outros são desconfiados, curiosos ou negligentes; existem ainda aqueles que subestimam a receita dos espíritos, porque esperavam um diagnóstico espetacular ou medicação miraculosa. Em caso contrário, eles a deixam esquecida na gaveta de qualquer móvel para usarem-na se falharem todos os recursos da medicina acadêmica. 

Quando se convencem de que estão realmente liquidados e a medicina do mundo se confessa impotente para curá-los, então se apegam à velha receita mediúnica ou consultam novamente os espíritos como derradeira tábua de salvação. Infelizmente, já deixaram de aproveitar o ensejo da hora psicológica oportuna do tratamento espírita pois, enquanto seriam curados fisicamente, também se devotariam em tempo ao estudo e conhecimento dos postulados salvadores do Espiritismo. Mesmo a prescrição dos espíritos não pode exorbitar das leis comuns da vida, nem produzir o milagre extemporâneo ou a cura espetacular, quando já está ultrapassado o prazo em que o remédio produziria seus efeitos benéficos. O enfermo que já esgotou todas as suas reservas vitais e intoxicou o seu organismo com o excesso da medicação alopata não deve exigir da receita espírita o "milagre" capaz de restituir-lhe a saúde completamente abalada. 

PERGUNTA: - Deduzimos das vossas palavras que a receita espírita não pode produzir o efeito desejado, caso os doentes deixem de usar a medicação logo em seguida à sua prescrição. Não é assim? 

RAMATÍS: - Evidentemente, os espíritos receitistas não podem ser responsáveis pelos fracassos terapêuticos de suas prescrições quando os pacientes demoram ou negligenciam o uso da medicação prescrita. O remédio prescrito mediunicamente deixa de produzir os resultados vaticinados pelos terapeutas do Espaço, caso não seja utilizado, no máximo, em dez dias, pois além desse prazo podem ocorrer reações orgânicas inesperadas, de efeitos mórbidos imprevistos. 

Os espíritos desencarnados não só auxiliam a cura dos enfermos, receitando-lhes os medicamentos apropriados, como também dinamizam-lhes as reservas vitais e as forças "etereoastrais" que circulam pelo perispírito. Esse reajuste dinâmico do perispírito às vezes é processado no momento em que fazem o diagnóstico. Mas a mente do próprio enfermo, em atuação descontrolada, pode alterar posteriormente a tonalidade do metabolismo e estabelecer novas condições mórbidas, que então desaconselham o uso do medicamento alguns dias depois. 

É evidente que os espíritos não podem prever nos enfermos desconfiados ou negligentes, que lhes subestimam o tratamento prescrito, as diversas mutações emotivas e suas atitudes mentais futuras, que os tornam impermeáveis ao tipo da medicação já receitada. A receita mediúnica não é panacéia tipo "cura tudo", que pode ser usada em qualquer condição ou a qualquer momento. 

Aliás, quer os consultantes cumpram religiosamente as prescrições medicamentos as que lhes fornecem os desencarnados, ou então as subestimem de modo leviano, o Alto sempre credita ao médium correto e serviçal o que lhe for devido pelo trabalho benfeitor realizado por ele. 

PERGUNTA: - No princípio de vossa explicação fizestes referência a uma consciência humana e a uma consciência espiritual. Tratando-se de um problema algo complexo, desejaríamos esclarecimentos mais amplos a tal respeito. Podereis atender-nos? 

RAMATÍS: - A consciência humana compreende o estado de vigília do espírito quando ele se encontra ligado ou imerso no corpo físico. A consciência espiritual, no entanto, age diretamente no mundo divino do espírito como entidade eterna, ou seja, no seu plano "real" e definitivo. É a consciência imutável do ser que preexiste além do tempo "vida humana"; e manifesta-se independente das limitações acanhadas do "eu" ou do "mim", que constituem a personalidade do "ego" deslocado do seio do Cosmo onde "espaço e tempo" são infinitos. 

A mente do homem não é a sua consciência eterna, mas, sim uma espécie de "estação receptora e emissora", de amplitude restrita ou limitada aos conhecimentos, fenômenos e fatos dos mundos planetários, nos quais ela exercita o seu discernimento mediante o processo mental de raciocinar, atendo-se às contingências ou fases da infância, mocidade e velhice no ambiente de um mundo provisório ou irreal, pois se transforma e desaparece num prazo determinado. 

Em tais condições, a consciência humana amplia-se, desenvolve-se pelo acúmulo das memórias daquilo que "ela vê, analisa e considera", em contado com os ambientes dos mundos planetários onde o indivíduo ingressa nas suas reencarnações. Conseqüentemente, as lembranças do que vai sendo averbado na tela mental não significam a "realidade" espiritual imutável, mas apenas um "acervo" mental de caráter transitório, pois as idéias ou conhecimentos "mais perfeitos", que vão surgindo na mente, apagam as suas antecedentes, "menos perfeitas". 

A mente humana raciocina à parte, sob uma condição relativa e transitória, muitíssimo pessoal em face da Consciência Infinita e Onisciente do Criador. Deste modo, ela, então, cria inibições, desejos, ansiedades, preconceitos, ideais, medos, concepções individualistas, que constituem o seu equipo próprio no desenrolar da sua existência. 

A sua personalidade é conformada à sua experiência pessoal no ambiente em que se encontra; mas, de nenhum modo, isso é o real. Assim, a capacidade e o entendimento de cada criatura que se move numa direção simpática a si mesma fortalecem e alimentam o "ego" inferior como uma consciência separada do Ego Espiritual. 

Assim se forja a consciência humana, pelo acúmulo de experiências e lembranças captadas pela mente em atuação no mundo material transitório e irreal. Lembra o perfume da flor, mas não é a própria flor. 

PERGUNTA: - Como compreendermos o sentido íntimo e exato da consciência humana, qual perfume e não como a própria flor? 

RAMATÍS: - A consciência de idéias, crenças, especulações ou desejos realizados não define, não é a realidade espiritual, pois o real, "no seu todo" não pode ser configurado por um seu efeito, que é apenas um reflexo limitado do mesmo todo. 

A mente humana pode conceituar em razão do seu próprio condicionamento e de sua sabedoria decalcada no ambiente do mundo planetário; mas não pode criar a realidade espiritual, que independe dela, pois o perfume (sendo um efeito) não pode gerar ou produzir a flor (a causa) que o gerou. Para melhor elucidação tomemos este exemplo: Admitindo-se que uma lâmpada de 50 watts pudesse conceituar mentalmente a figura da usina que lhe transmite a energia elétrica, naturalmente ela só poderia imaginá-la com os recursos que lhe fossem conhecidos; ou seja: só poderia configurar a usina comparando-a a uma outra lâmpada similar, porém, gigantesca e mais poderosa, de uns 500.000 watts, por exemplo; mas essa concepção imaginária não define o que, de fato, é a usina em sua realidade. Assim é, pois, a consciência humana, como personalidade forjada e configurada através dos elementos conhecidos da própria mente. Ao passo que a consciência espiritual e preexistente no homem é que constitui a consciência definitiva, o imutável, enfim - o real! 

Ao homem encarnado não é possível descrever o real que independe das formas do mundo físico e da mente humana, pois ele só conta com os conhecimentos que a sua própria mente assimila através de sua presença no mundo das formas materiais provisórias, do mundo irreal.

domingo, 8 de julho de 2012

MEDIUNIDADE DE CURA POR RAMATIS - PARTE 7

Por que nem todos 
se curam pelo receituário mediúnico? 


PERGUNTA: - Desde que a dor e o sofrimento purificam o homem, por que os mentores espirituais não reservam só aos médicos a função de cuidar dos enfermos do mundo? Se o próprio médium assistido pelos bons espíritos é incapaz de eliminar a doença cármica de retificação espiritual do enfermo, porventura não seria mais lógico e sensato o Alto deixar à medicina terrena a responsabilidade de socorrer e curar fisicamente os encarnados? 

RAMATÍS: - As curas através do receituário espírita destinam-se principalmente a abalar as criaturas descrentes, os religiosos fanáticos, os indiferentes e os próprios médicos ateístas. Atraindo-os também para o estudo e vivência dos postulados espiríticos da vida imortal, é evidente, neste caso, que a saúde física ainda é menos importante do que a modificação espiritual dos beneficiados pelo Espiritismo. O enfermo que, depois de perder sua fé e confiança nos recursos médicos do mundo, alcança a sua cura ou a de seus familiares por intermédio da receita espírita, jamais poderá esquecer essa doutrina espiritualista que lhes proporcionou benefícios tão extraordinários e ainda gratuitos. 

Os pacientes mais sensíveis e gratos, depois de curados pela terapêutica espírita, procuram recuperar o tempo que perderam com as futilidades do mundo transitório, devotando-se com entusiasmo aos empreendimentos caritativos e ajudando a recuperação física e espiritual de outros enfermos. Desde que ao médico cabe a tarefa messiânica de ajudar o homem terreno na suportação do seu fardo cármico e aliviar-lhe as dores demasiadamente cruciantes, então, ao médium cumpre o dever de animar e confortar o espírito do doente, quando nos seus momentos de desespero enfrenta a doença redentora. 

PERGUNTA: - Considerando-se que a Medicina, às vezes, também efetua curas miraculosas, isto prova que ela também é assistida pelos espíritos terapeutas. Deveríamos subestimá-la, só porque se trata de uma profissão acadêmica, alheia à doutrina espiritualista? 

RAMATÍS: - Quando os mentores siderais facilitam a cura física por intermédio da medicina terrena, quer isto se realize de modo comum ou excepcional, é óbvio que os pacientes beneficiados não ficam obrigados a qualquer modificação moral ou mudança de raciocínio, nem os médicos também ficam obrigados a converter-se. Aliás, quase sempre sucede o contrário, pois os doentes salvos pela abnegação e capacidade dos médicos terrenos não demoram muito tempo em esquecer os benefícios recebidos, sentindo-se desobrigados de qualquer gratidão, só pelo fato de terem remunerado os seus serviços. 

Os mais ingratos costumam associar certas coincidências fortuitas para justificar a sua cura, atribuindo o sucesso médico a fatores estranhos. Se o beneficiado é católico, quase sempre exprime a gratidão de sua saúde ao seu santo predileto. 

No entanto, o caso muda de figura quando acontece sob os auspícios do Espiritismo, pois tratando-se de uma doutrina espiritualista e sem obrigação de curar os males físicos dos seus adeptos, simpatizantes ou estranhos, os que são recuperados pela sua terapêutica mediúnica jamais olvidam os seus serviços incomuns e gratuitos, que lhes restituíram a saúde por intermédio dos espíritos benfeitores. 

PERGUNTA: - E quais seriam os outros objetivos espirituais da mediunidade de cura, além de proporcionar a saúde física do homem e interessá-lo no estudo e no conhecimento dos princípios morais do Espiritismo? 

RAMATÍS: - A mediunidade de cura transforma-se num excelente ensejo de trabalho e preocupação proveitosa no mundo terreno, tanto para os adeptos do Espiritismo como para os próprios espíritos desencarnados desenvolverem suas virtudes no serviço de amor ao próximo. Na constituição de grupos de trabalho mediúnico em atividade caritativa, os médiuns redimem-se do passado delituoso e os demais companheiros dinamizam e fortalecem suas reservas espirituais. 

O Alto sempre nos proporciona a oportunidade de acelerarmos o nosso progresso espiritual, desde que estejamos também preocupados em solver os problemas angustiosos e difíceis dos nossos irmãos. E a seara espírita é um desses ótimos ensejos para a reabilitação da alma, e seu programa de trabalho educativo e redentor é uma segurança para o espírito bem-intencionado. O adepto do Espiritismo, quando estudioso e prudente, é como o general em véspera de batalha: ele esquematiza o seu próprio combate para vencer as paixões e os vícios nocivos inerentes à sua natureza animal. 

No entanto, o homem desinteressado de conhecer-se a si mesmo, indiferente a saber de onde veio, para onde vai e o que significa no Universo, pode julgar-se um ser habilidoso e astuto, porque aproveita epicuristicamente todos os prazeres do mundo físico. No entanto, ele é um completo desmentido ao conceito de sabedoria espiritual, uma vez que não é sábio nem talentoso, mas estúpido e simplório, pois quem se desinteressa de conhecer a sua própria existência real, nega-se a si mesmo! 

O Espiritismo, além do objetivo importante de ajudar o homem a descobrir sua própria imortalidade e significação no Cosmo, através do serviço mediúnico benfeitor, também rompe mais cedo os grilhões do Carma humano pregresso. É evidente que todas as horas empregadas pelo homem nas tarefas espirituais, tanto o afastam do contacto prejudicial com as paixões inferiores como o livram das ligações perigosas com os espíritos das sombras. 

PERGUNTA: - E quais seriam esses empreendimentos proveitosos que o Espiritismo proporciona aos seus adeptos, quer ajudando-os a reduzir o seu Carma pretérito, assim como a apressar o seu progresso espiritual? 

RAMATÍS: - É vasto o campo de trabalho em favor alheio sugerido pela doutrina espírita. Através dos sentimentos fraternos tão peculiares do povo brasileiro, ela já tem proporcionado o abrigo para o órfão, o sanatório para o tuberculoso, o asilo para o velho, a creche para a criança, a associação para o recém-nascido, a instituição para o demente, o albergue noturno para os deserdados da sorte. Graças, pois, ao incentivo do Espiritismo, os espíritas desenvolvem um labor proveitoso em seus movimentos socorristas - o que já é tão tradicional no vosso país - alimentando os famintos, curando os enfermos, atendendo os desamparados e alfabetizando as crianças. 

E quase tudo isso é feito às expensas dos centros, das federações espíritas, das subvenções e auxílios particulares dos próprios adeptos, que assim procuram ajudar nos problemas de assistência social sem esperarem pelo apoio oficial dos poderes públicos tão negligentes. Os espíritas não ignoram que os governos do mundo costumam atender primeiramente aos seus propósitos políticos e interesses partidários, ou então satisfazer as exigências do Clero Romano dominante das massas incultas, antes de se preocuparem com a criança analfabeta, a mãe pobre, o velho alquebrado e o enfermo abandonado. Enquanto destinam verbas vultosas para campanhas desportivas, embaixadas faustosas, concursos espetaculares, festas carnavalescas, congressos eucarísticos, episcopados luxuosos e catedrais suntuosas de pedra fria, destinados aos que já têm saúde e estão ricos e fartos, eles esquecem censuravelmente os doentes, os pobres e os esfomeados! 

Daí, o mérito do trabalho anônimo dos espíritas no setor caritativo, quando além da pregação em favor da libertação espiritual do homem, eles ainda providenciam desde a receita mediúnica, os passes e a água fluidificada para a cura do corpo enfermo. 

PERGUNTA: - Mas por que a receita mediúnica, às vezes, não produz o efeito ou a cura desejada, mesmo quando é prescrita pelos espíritos de alto nível sideral? Enfim, por que nem todos os pacientes curam-se pelo Espiritismo, uma vez que isso os levaria a melhorar sua conduta espiritual? 

RAMATÍS: - Já dissemos que a Terra ainda é um planeta imperfeito, em cuja psicosfera muito densa avultam as energias agressivas que investem violentamente contra a contextura delicadíssima do perispírito das entidades benfeitoras em serviço socorrista junto à crosta terráquea. Na verdade, embora tratem-se de forças adversas do espírito, elas são oriundas da fonte selvática do mundo animal. Malgrado a sua permanente hostilidade a qualquer empreendimento de ordem espiritual, é de sua força, coesão e zelo que depende a manutenção das formas terrenas. 

No entanto, transformam-se em cerrada cortina a dificultar o trabalho dos espíritos superiores, impedindo-os, por vezes, de acertarem a solução terapêutica mais exata em favor dos desencarnados. Aliás, sabeis que o próprio Jesus não pôde curar todos os homens, pois enquanto alguns ainda não possuíam a "fé que remove montanhas", outros não estavam em condições de livrarem-se dos seus sofrimentos e mazelas físicas determinados pela Lei do Carma. 

Apesar do amor e da bondade incondicionais que caracterizam os espíritos superiores, nem por isso eles podem afastar prematuramente os seus queridos das provas cármicas redentoras. Conforme já vos temos repetido diversas vezes, as doenças originadas pela indisciplina mental ou emoção descontrolada, produzem toxinas psíquicas que aderem à contextura do perispírito. Mais tarde elas precisam fluir para o corpo físico, o qual então se transforma num "mata-borrão" vivo, com a função sacrificial de absorver o veneno produzido pelos estados pecaminosos do espírito invigilante. Finalmente, quando o cadáver saturado de tóxico psíquico desce à cova do cemitério, ele é o "fio-terra" encarregado de esgotar ou transferir para o solo da matéria a carga deletéria vertida pelo perispírito. 

Em conseqüência, nem todas as receitas mediúnicas produzem o efeito desejado, pois enquanto em certos casos as dificuldades do ambiente terráqueo impedem o êxito terapêutico dos espíritos, doutra feita o estado do enfermo não deve ser alterado; porque trata-se de uma "descarga mórbida" do perispírito para o corpo de carne, isto é, um processo benéfico ao espírito. 

Em tal caso, os espíritos nada mais podem fazer do que ministrar alguns conselhos ou advertências salutares, no momento, em vez de prescreverem medicamentos ou fornecerem o diagnóstico tão esperado na consulta mediúnica, o que nem sempre deixa o consulente satisfeito. 

PERGUNTA: - Aliás, temos observado que os consulentes, em geral, não apreciam os conselhos e as advertências dos espíritos desencarnados, quando a sua máxima preocupação é conhecer o diagnóstico de sua doença e receber a medicação salvadora. Que dizeis? 

RAMATÍS: - Efetivamente, os doentes que solicitam receitas mediúnicas quase sempre ficam decepcionados quando, em vez do diagnóstico incomum ou da medicação certa, são convidados pelos espíritos à oração, ao reajuste espiritual e à submissão aos ensinamentos de Jesus. Em geral, eles buscam apenas a solução fácil e miraculosa para os seus males e incômodos físicos, mas mostram-se apáticos e indiferentes aos conselhos e advertências espirituais que lhes sugerem modificação da conduta moral ou resignação ante as vicissitudes cotidianas. Decepcionados, depois criticam os médiuns pelo seu receituário mediúnico ineficaz e os guias não passam de conselheiros sisudos. 

Os espíritos mais sensatos preferem erguer o ânimo e dinamizar a fé dos seus enfermos, quando verificam que a eliminação do sofrimento dos mesmos causar-lhes-ia prejuízos à sua mais breve redenção espiritual. Aliás, os terrícolas ainda vivem tão escravizados ao imediatismo das paixões e dos vícios terrenos, que se tornam impermeáveis aos mais heróicos esforços dos seus mentores espirituais. Deste modo, eles fazem jus ao sofrimento que incessantemente lhes perturba a vida cotidiana e os impede de incorrerem na prática de maiores erros. 

Os espíritos protetores não têm por função específica afastar os seus pupilos da dor que os redime e os estorva de se comprometerem com novos delitos espirituais, mas acima de tudo o seu dever é acordá-los para a realidade da vida imortal. Nem todos os homens podem ser curados pela terapêutica medi única da doutrina espírita, mesmo quando são atendidos por médiuns eficientes e espíritos elevados, pois a saúde do corpo físico é menos importante do que o equilíbrio espiritual da alma eterna. 

A verdadeira saúde provém do culto incondicional do espírito aos ensinamentos evangélicos e às virtudes propagadas há milênios pelos líderes espirituais da Terra, quando de sua peregrinação messiânica entre todos os povos. No entanto, a enfermidade alimenta-se no combustível inferior gerado pelos pecados ou pelas paixões nefastas. Aliás, é por isso que o Evangelho de Jesus ainda é o mais avançado "Tratado Médico" da alma, pois ao recomendar a bondade, o amor, a tolerância, a paciência, a resignação ou humildade, atende às próprias necessidades da fisiologia humana em favor da saúde corporal. Mesmo a oração constante na vida do homem, principalmente antes das refeições, ainda é excelente indicação terapêutica, uma vez que estabelece o clima de serenidade espiritual junto à mesa de refeições, e proporciona a regularização do processo fisiológico humano em seus diversos efeitos. O conceito de "alma sã em corpo são" há milênios desposado pelos gregos, já era advertência profunda de que a saúde física depende fundamentalmente da saúde espiritual. É o que nem todos os consulentes de receitas mediúnicas concordam em aceitar, pois quando os espíritos dão-lhes conselhos e os advertem sem as minúcias de sua doença ou sem medicamento, eles então deixam de crer na mensagem espírita e desmerecem o médium.

sábado, 7 de julho de 2012

MEDIUNIDADE DE PSICOMETRIA - PARTE 7

ENIGMAS DA PSICOMETRIA 

ERNESTO BOZZANO 


Dai resulta que, sem a presença de um hábil pesquisador, pronto a interrogar-me sobre assuntos importantes, não me fora possível aludir a muitos incidentes curiosos e concludentes, e, sem embargo, visualizados. 

Se, por exemplo, me apresentassem um objeto proveniente da rua da Esquadra, de há 150 anos, eu não diria talvez nada em vendo cabeças humanas à porta das prisões do Tribunal, e isto pela simples razão de tal espetáculo lhe parecer naturalismo. (Light, 1909, pág. 20.) 

Pelo que toca às condições psicológicas que engendram nos sensitivos esses estado de identificação, pode admitir-se o fundamento das observações de Denton, mediante as quais o fenômeno deve ser atribuído à sensibilidade dos psicômetras, que provocaria a dominação e obnubilação do próprio espírito, sob as influências que os invadem. 

Se quiséssemos investigar ainda mais profundamente a razão dos fatos, poderíamos advertir que eles se originam, possivelmente, de um fenômeno de sintonização entre o sistema de vibrações, constitutivo da personalidade do sensitivo, e o sistema de vibrações contido na aura psicometrada. 

Dever-se-ia então supor que, assim como fazendo timbrar uma corda harmônica ao lado de outra no mesmo tensivo grau, esta lhe corresponde em ressonância, assim também, quando um sensitivo entra em relação com a aura de qualquer objeto -, o que significa que ele conseguiu sintonizar o sistema de vibrações da sua própria natureza com o contido na aura que lhe interessa, pois de outro modo impossível lhe fora percebê-la e interpretá-la -, ele vibra em uníssono com o sistema de vibrações da aura com que se relaciona, o que vale dizer que sente em si todas as sensações organopsíquicas, ou os estados da matéria que contribuem para especializar o sistema de vibrações contido na aura psicometrada. 

Ele deve, portanto, sentir-se identificado com a pessoa viva ou morta, com o ser animal, organismo vegetal ou matéria mineral, a que se refira a aura contida no objeto. 



IX Caso - Nos comentários dedicados aos casos precedentes, fiz alusão às faculdades psicométricas do senhor Kensett Style. 

Agora, aqui reproduzo um primeiro episódio deste gênero, por ele mencionado em conferência que pronunciou em Londres, na sede da Aliança Espiritualista (Light, 1909, pág. 37.) 

Ao psicômetra freqüentemente se deparam numerosas dificuldades a vencer. 

Temos, em primeiro lugar, a dificuldade proveniente de diversas influencia contidas no próprio objeto, e que se podem dividir em paralelas e superpostas. 

Chamo paralela a influencia que se apresenta quando o objeto pertenceu a duas ou mais pessoas, ou quando composto de duas ou mais coisas diversas e reunidas. 

Vou citar um exemplo desta natureza: 

Possuo uma espada de Derviche, que serviu na batalha de Omdurmann. Quando a tomei nas mãos e lhe toquei pela primeira vez o punho e a bainha, tive a visão de um fanático barbudo, tez bronzeada, envolvido em ampla capa, e que, à frente de uma horda de muçulmanos, concitava os seus comandados ao extermínio dos infiéis. 

Estou em crer que deveria esperar algo de semelhante. 

Mas, eis que tendo desembainhado a espada e palpado a lâmina, tive uma visão bem diferente: vi o semblante de um homem que parecia haver chegado ao extremo limite do esgotamento físico e que, revestido de antiga armadura, de origem européia, estava perdido em deserta, imensa e arenosa planície. 

Ajoelhado, tinha ele diante de si um espadagão de punho duplo, evidentemente para substituir uma cruz, tal como se praticava na Idade Média, ao utilizar qualquer sinal simbólico, para melhor se concentrar na prece. 

A mim me parecia que aquela criatura se perdera no deserto, separado dos companheiros de armas e, desesperançado já de qualquer socorro, preparava-se para morrer como cavaleiro cristão. 

Este mistério foi pouco depois aclarado por um amigo, que descobriu na espada, quase imperceptível, a marca de fabricação, graças à qual pudemos assegurar-nos de sua proveniência francesa, da época dos Túdores. 

Neste caso, estimamos nela uma relíquia da última Cruzada, composta em sua totalidade quase que só de franceses, capturados ou exterminados pelos sarracenos. 

Evidentes eram na lâmina os sinais de seu encurtamento, feito por quem a recolhera, reduzindo-a ao tamanho das espadas comumente usadas pelos maometanos. 

Nesta narrativa do Senhor Kensett Style encontram-se vários outros fatos do mesmo teor. 

Como lhes explicar a origem ? Em primeiro lugar é evidente que, para esclarecer o episódio do cruzado (concordando com a origem da espada psicometrada), não seria possível nos afastarmos muito da hipótese que leva a considerar o objeto capaz de contar a sua própria história. Nestas condições, se, de um lado a análise dos fatos leva a eliminar a primeira forma desta hipótese, autorizando a crer que a aura do objeto seria diretamente registrada pela matéria, por outra lado ele nos obriga a substituir essa primeira forma por qualquer das duas variantes, segundo as quais os sensitivos entrariam em relação com uma ambiência metaetérica, ou com o éter do Universo, que, devendo ser de natureza onipresente e, por conseqüência, imanente na matéria dos objetos psicometrados, receberia e conservaria os sistemas de vibrações correspondentes aos acontecimentos sobrevindos a seus possuidores. 



X Caso - Podendo a teoria que atribui aos objetos a capacidade de revelar a própria história ser tida como fundamental para explicação de fenômenos psicométricos, convém examiná-la sob todos os seus aspectos. 

Reproduzo aqui, destarte, um novo exemplo no qual se observa outra modalidade da fenomenologia. 

Tomei-o de uma série de experiências da senhorita Edith Hawthorne, publicadas em Light (1903, pág. 173) . 

Diz a Srta. Hawthorne 

No outono passado recebi de presente uma secretária antiga, cujas gavetas não revolvi, até quinta-feira última, 11 de março. Ali encontrei uma coleção de relíquias guardadas por um ancião, entre elas um pedaço de pano de linho antiqüíssimo, do tamanho de algumas polegadas. 

Um tal ou qual escrúpulo me impediu de condenar ao fogo esse retalho, bem como outros artigos insignificantes - obreias, lacre, etc. 

Não obstante, a idéia de psicometrar tais objetos longe estava do meu pensamento, e só me veio horas depois. 

Por que - pensava - não tomar este retalho de linho, a ver se ele me revela algum pormenor de sua história? 

Pois aqui tendes a história: 

Desde o instante em que o tomei, senti-me transportada à Abadia de Westminster, precisamente a um compartimento sombrio no qual mal se respirava. 

Havia ali uma espécie de exposição ceroplástica, reconhecendo eu a rainha Isabel numa das figuras, vestida com magnífica saia de veludo recamada de esplêndidos enfeites. 

E a mim me parecia entrever também o linho, debaixo da saia. 

Vi, depois, surgir um esquife; depois, um carro funerário, e finalmente a numerosa comitiva de um enterro, que se dirigia lentamente na direção de Whitechall. 

Levavam os homens coletes de lã e chapéus da época dos Tudores; as mulheres, saia curta e coifa... 

A seguir, encontrei-me de novo no interior da Abadia, em pequena capela na qual vibravam acordes de música instrumental muito simples, com predominância de gaitas de foles e instrumentos de madeira. 

Já meu pensamento se concentrava na morte de um homem jovem. 

Pouco depois, vi-me na Torre de Londres, atravessei a Torre Verde, entrei na salinha da Torre Beauchamp, em cujas paredes se inscrevem tantos nomes. 

Ali, estava um homem revestido em manto de parada, com colarinho de pregas. 

Rosto oval, pálido, cabelos castanhos, curtos; fronte estreita e alta, mãos brancas, esguias, de unhas bem-cuidadas. 

Esse homem lia um livro em pergaminho, cujas letras maiúsculas de cada alínea eram ricamente coloridas. 

A minha impressão era a de que se tratava de um homem de letras. Vi que retirava do gibão um rosário e beijava-lhe a cruz. 

Ao vê-lo assim, afigurava que estivesse profundamente acabrunhado pela morte de alguém. 

De seus lábios como que brotava uma prece, enquanto com a mão esquerda estendida, na direção da Torre Branca, parecia indicar que para ali se dirigia o pensamento. 

Agora, outra representação se me desdobra à vista: na profundez da noite, distingo pequeno batel à flor de um rio... 

Um homem munido de archote desamarrou a corda que prendia o barco ao barranco, e vogava para Londres. 

De novo na Torre de Londres e precisamente no compartimento redondo da pequena Torre! 

Várias mulheres em corpetes de lã costuravam e conversavam em tom geral de tristeza, como se tratasse de luto, antes nacional que privado. 

Dali me transportei a Cheapide, onde as casas me fizeram evocar decorações teatrais. 

Reconheci-me, então, na loja de um negociante de fazendas, às voltas com duas freguesas, e ouvi distintamente as palavras Bretanha e Saxe. 

Logo imaginei que a fazenda que procuravam comprar provinha dessas duas regiões. 

Ambas as freguesas pareceram-me tristes, mas não angustiadas. A seguir, vi-me num compartimento escuro e frio, saturado do cheiro de vinagre misturado com algumas plantas aromáticas, e tive arrepios de pavor ao pressentir a proximidade de um cadáver. 

A cena mudou, ainda uma vez, e vi aparecer um carro fúnebre, sobre o qual se estendia, deitada, uma figura de cera principesca amortalhada, e toda uma multidão formigante, em torno. Finalmente, atravessei os subterrâneos da Abadia de Westminster, aonde me chegavam, de longe, as vozes solenes de um órgão e onde movimentavam algumas mulheres ocupadas na arrumação e limpeza de poeirentas roupas, que me fizeram espirrar fortemente. Aquela poeirada secular sufocava-me! 

Sentia na boca um gosto de cânfora, sândalo e substancia outras anticépticas, cujo nome ignoro. 

E aquela poeira formou diante de meus olhos uma sucessão de episódios históricos, muito fugazes, que não foi possível discernir bastantemente para poder descrevé-los. 

Todavia, essa série de imagens gravou-me no espírito a convicção de que o antiqüíssimo retalho de linho havia pertencido às vestes de uma personalidade real e que por isso fora transferido a uma figura de cera. 

Tudo isso assumia a feição de agradável lição da história e costumes ingleses; mas o valor das cenas entrevistas afigurava assaz duvidoso. 

Em todo caso, não me encontrava em condições de resolver o problema, porque meus conhecimentos concernentes à Abadia de Westminster limitavam-se a uma rápida visita ao túmulo de Charles Dickens, em 7 de fevereiro do corrente ano. 

Resolvi, portanto, proceder a pequeno inquérito nesse sentido e foi assim que soube que as figuras de cera lá existiam realmente, conservadas na Abadia, posto que não acessíveis ao público, e que provinham de um antigo costume, hoje esquecido, qual o do transporte processional da efígie do soberano falecido, revestida de sua real indumentária. 

Uma vez elucidado este ponto, escrevi ao velho senhor que me havia presenteado com aquele móvel, a fim de saber se o retalho de linho psicometrado apresentava qualquer interesse histórico. 

Eis a resposta obtida: Cara Srta. Edith: as suas induções são bem fundadas. Esse pedaço de pano tem, de fato, um valor histórico que não possa, contudo, precisamente determinar. 

Antes do mais, diga-se, ele pertencia à minha irmã (hoje falecida), que o tinha em grande apreço, pelo haver recebido de pessoa relacionada com a Abadia de Westminster. 

Muito grata ficaria eu se qualquer leitor destas linhas pudesse inteirar-me da época em que foi abolida a cerimônia do transporte das efígies reais em cera. 

Nesta narrativa convém notar a convergência admirável de todas as visões da sensitiva, por lhe darem a conhecer que aquele retalho havia sido cortado das vestes de uma figura real, ceroplástica, existente na Abadia de Westminster. 

Daí se infere que a maior parte das imagens visualizadas não representam, provavelmente, fatos específicos produzidos em relação com o objeto psicometrado, mas, unicamente, imagens pictográficas ou representações simbólicas, transmitidas à sensitiva pelo seu Eu subconsciente, com o fito de documentá-la sobre o que ela desejava evocar. 

Assim, por exemplo, a figura do erudito que murmura uma prece apontando para a Torre Branca como lhe fazer compreender que era personagem real a pessoa por quem exortava assim, igualmente, as duas senhoras que numa loja compravam tecidos, pronunciando as palavras Bretanha e Saxe, como para identificar a procedência do pano psicometrado. 

Estas duas visadas não podem ser tidas como reprodução de fatos antepassados, mas como verdadeiras imagens pictográficas e simbólicas, destinadas a informar a sensitiva de fatos em relação com o objeto psicometrado. 

Se for verdade que este novo aspecto das manifestações psicométricas contribui, até certo ponto, para explicar o problema que vimos confrontando, não pode ele, por outro lado, modificar as conclusões por nós adquiridas no intuito de lhes explicar a gênese. 

Com efeito, para nos inteirarmos desta forma de indícios psicométricos de natureza simbólica, é preciso, a despeito de tudo, recorrer à hipótese de uma influência pessoal depositada nos objetos pelas pessoas que deles se utilizam, ou à hipótese complementar dos sistemas de vibrações correspondentes aos acontecimentos através dos quais tenham passado os objetos. 

Sem esta sanção, inexplicável fora à causa mediante a qual se estabelece à relação entre o sensitivo e as pessoas, coisas, ambientes metaetéricos ou éter do Universo. 

E sem embargo, menos verdade não é que precisamos ter em conta o fato de as visualizações nem sempre corresponderem aos acontecimentos reais, inerentes ao objeto psicometrado. 

Conseqüentemente, deveremos dizer, que, se na maioria dos casos a análise dos fatos demonstra a concordância da visão com os acontecimentos passados, há, contudo, exceções à regra, sob a forma de representações simbólicas, que tendem, igualmente, mas de modo indireto, a documentar o sensitivo sobre a história do objeto psicometrado . . . 



XI Caso - Venho expor agora algumas variedades mais ou menos curiosas e misteriosas das relações psicométricas, a começar por aquela em que a relação se estabelece espontaneamente, logo que o sensitivo se encontra perto de um objeto que lhe interessa, mas, sem que de tal se precate e sem ter tido contacto com o referido objeto. 

No episódio a seguir, o fenômeno se verifica com a recepção de uma carta, como se ela tivesse atuado psicometricamente a certa distância, originando a formação do rapport com a subconsciência do remetente. 

Este caso é extraído do Jornal da Sociedade de Investigações Psíquicas (vol. 17, pág. 103). 

Relata-o nestes termos o Rev. W. M. Lewis: 

Há trinta anos, mais ou menos, que moro a seis milhas da cidade de David's Head (Pembrokeshire), onde sou pastor de uma igreja não reformista. 

Achava-me em Londres, no mês de maio de 1890, quando, certa manhã, fui despertada pelo barulho peculiar do carteiro procurando introduzir a correspondência na caixa da portaria. 

Ainda sonolento, tornei a adormecer, mas não por muito tempo. 

Sonhei, então, que me encontrava em uma casa repleta de pessoas, atentas a um sermão do Rev. D. C. D., Presidente, a esse tempo, de um colégio no Breconshire. 

A voz do pregador, aliás sempre fraca, mal se ouvia do lugar em que me detinha e eu me esforçava por apanhar-lhe algumas frases, sem o conseguir. 

Para isso, o que mais concorria era o barulho que vinha do exterior, e, sobretudo, o som de uma charanga que acabou por tornar-se ensurdecente, a ponto de fazer calar o orador. 

Procurei, então, acercar-me dele e exprimir-lhe o desejo de ir ouvi-lo no colégio de T..., pedindo-lhe me desse a conhecer os seus temas. 

Esforçou-se em mos expor, mas os ruídos externos prosseguiam tão fortes que me não foi possível ouvi-lo. 

Todas as circunstancia desse sonho me ficaram tão nitidamente gravadas na memória, que, ao vestir-me, nelas meditava intensamente, esforçando-me por coligir as causas do fenômeno. 

Ora, ao descer ao pavimento térreo, verifiquei que a única carta trazida pelo carteiro era de meu filho, então residente no colégio de Aberystwith. 

Abrindo-a, verifiquei surpreso que ela se referia exclusivamente ao pregador do meu sonho. 

Meu filho aí contava que, precisamente no domingo anterior, a congregação tivera a honra de ouvir, na capela de que era ele titular, o Rev. D. C. D., cuja fama atraíra grande número de crentes e cujos sermões obtiveram memorável êxito em toda a região. 

Eu ignorava absolutamente que o Rev. Presidente de T... tivesse a intenção de visitar Aberystwith e, assim sendo, achei muito notável a coincidência do meu sonho com a chegada da carta noticiosa daquele advento. 

Contudo, eis aqui a circunstância ainda mais notável e insólita: eu disse que, no sonho, a voz do pregador se tornava ininteligível, devido ao barulho externo e ao som de uma banda de música. 

Ora, quando de retorno ao lar, recebi a visita de meu filho em férias; ao contar-lhe o sonho tão idêntico ao texto da carta, disse-me ele: O que há de mais estranhável nesse sonho é que, no domingo da pregação do Reverendo em nossa Capela, mal apenas começava ele o sermão, quando passou na rua, que fica atrás da mesma Capela, todo o cortejo de um circo de cavalinhos; o barulho dos carros, cavalo e povo era tal, que, por algum tempo, nada se podia ouvir. 

Devo frisar este detalhe: posto que tenha estado uma ou duas vezes na Capela de Aberystwith, a sala entrevista em meu sonho correspondia â que lá existe realmente. 

O que correspondia à realidade era o barulho, de vez que este me chegava por detrás e não do auditório, tal como se verificou. 

(Segue-se o testemunho de meu filho, na parte que lhe concerne.) 

A circunstância teoricamente interessante do caso, aqui exposto, consiste no fato de ser a relação psicométrica estabelecida à pequena distância do objeto que lhe deu causa, sem qualquer contacto com o sensitivo. 

Quanto ao incidente psicométrico em si mesmo, é evidente que ele se reduz a um fenômeno de relação telepática, sobrevindo entre o sensitivo e seu filho, por intermédio da carta deste. 

As informações verídicas obtidas no sonho parece que foram hauridas na subconsciência do remetente. 



XII Caso – Neste outro episódio por mim destacado do interessante livro A vista, a distância, no Tempo e no Espaço, de Edmond Duchatel (pág. 49), o mistério da ligação é mais difícil de explicar do que no caso precedente, pois aqui o sensitivo revela acontecimentos verificados distantemente do objeto psicometrado, como se este fosse suscetível de acolher as vibrações específicas dos acontecimentos que sucediam em seu próprio ambiente. 

Eis como discorre o Senhor Duchatel: 

Para dar idéia de uma consulta completa, transcrevemos a experiência de 13-9-1909, com uma bolsa de senhora, guardada na gaveta de um armário até dezembro de 1903, data do falecimento da sua dona, em virtude do qual passou, de mistura a objetos outros, para local diferente. 

A identificação dos fatos pôde ser feita de modo quase absoluto. 

Sentimentos de angústia (imaginária ou real), muita bondade, mas nada de ponderação; dores do lado esquerdo; impressão de chamas, de incêndio. 

Cenas ocorridas diante do armário onde a bolsa estava encerrada: 

Uma mulher de 25 a 40 anos se desvaneceu diante do armário; vê-se também nesse compartimento uma cena dramática, dois homens, tipo operário, trazem uma pessoa ferida (provavelmente um militar) a fim de ser pensado. 

Retrato em ponto grande, de um oficial, na parede do quarto. 

Uma porta do quarto condenado e anteriormente útil. 

Vaga sensação de uma pessoa desaparecida, depois de haver muito sofrido com o desaparecimento de outra... Sensação íntima e profundíssima. 

Em contacto com o objeto, uma carta de pêsames, começando por Cara filha, entre parênteses. 

A bolsa fora tocada longo tempo por alguém de vida interior muito intensa - objeto assaz fluidificado... 

Sem que se possa excluir a possibilidade dos objetos registrarem, a curta distância, as vibrações específicas dos acontecimentos desdobrados no ambiente em que se encontrem, é muito mais provável, no caso especial em apreço, que o sensitivo, por intermédio do objeto psicometrado, se tenha achado em relação com o meio em que permanecera o dito objeto. 

Efetivamente, se, no que concerne aos incidentes dramáticos ocorridos diante do armário, é teoricamente possível admitir que as vibrações específicas projetadas em torno por esses incidentes hajam sido registrados pelo éter imanente na bolsa psicometrada, outro tanto não poderia dar-se com as outras revelações do sensitivo, tais como a existência de um retrato de oficial e de uma porta condenada, duas coisas inanimadas e inertes, que não deveriam, portanto, emitir vibrações específicas, sem contar que a expressão - porta condenada - implica uma informação de natureza negativa, isto é, inexistente e como fato em si, capaz de emitir vibrações informativas. 

Por outro lado, essas revelações se complicariam de si mesmas, ao admitir-se a ligação do sensitivo com o ambiente de que provinha à bolsa, inclusive a pessoa que o habitava, provavelmente aparentada com a falecida dona daquele objeto. 



XIII Caso - Estas considerações, nas quais tratamos de psicometria à distância, levam, naturalmente, a tocar no caso da psicometria de um meio ambiente, quando o sensitivo nele se encontre. 

Os fatos desta natureza são assaz freqüentes na fenomenologia psicométrica. 

É provável mesmo que eles se verifiquem, mais do que pudéramos supor, na vida prática diuturna. 

Eis o que o respeito observa o Senhor Duchatel: 

A sensibilidade do Senhor Phaneg é de tal natureza, que, penetrando em um quarto, experimenta estranha angústia, sempre que esse quarto foi teatro de acontecimentos mais ou menos trágicos, embora dele desconhecidos. 

É possível que essa mesma sensibilidade seja peculiar, em menor grau, a muitas pessoas e de molde a explicar vagos temores, indisposições e mesmo pesadelos, que certos temperamentos sensitivos, principalmente mulheres e crianças, experimentam em alguns sítios, sem motivo apreciável e definido. 

Tudo nos leva a crer que estas reflexões do Senhor Duchatel têm fundamento real na prática. 

Lembro-me de que em meu livro, Os Fenômenos de Assombração, consagraram todo um capítulo, o VI, aos fenômenos de psicometria do ambiente, que apresenta grandes analogias com algumas manifestações de assombramento. 

Deles não falarei, portanto, senão rapidamente, tanto mais quanto do ponto de vista teórico não suscitam considerações novas e nada apresentam de nitidamente característico. 

De Light, extraio o seguinte caso (1904, pág. 131) , exposto pela percipientes, Sra. Katerine Bates, autora bem conhecida de várias obras apreciadas nos meios espiritualistas. 

Diz ela: 

Há alguns anos já que comecei a ser penosamente influenciada pela atmosfera psíquica das alcovas, o que constitui, para mim, que viajo constantemente, pernoitando aqui e acolá, um grave inconveniente. 

Aconteceu-me, mais de uma vez, ter de deixar um quarto de hotel, belo e confortável, por outro pequeno e escuro, isto por se me tornar insuportável à atmosfera mental ou moral gravada no ambiente por qualquer dos seus ocupantes anteriores. 

No meu caso, penso que, em regra, a aura por mim percebida não é a do último hóspede e ainda não me foi possível formular uma teoria satisfatória, relativamente ao princípio seletivo pelo qual são determinadas essas percepções. 

Todas as vezes que consegui certificar-me de quem era a aura percebida - como no caso que passo a relatar -, verifiquei quase sempre que os últimos hóspedes não haviam deixado qualquer influencia perceptível e que as minhas faculdades psicométricas tinham desanichado auras de antigos hóspedes, os quais, contudo, nem por isso se distinguiam por seu relevo pessoal. Estou, assim, inclinada a crer que algumas faculdades do caráter são, mais que outras, registráveis, e que esse fato se liga à existência, nas mesmas qualidades, de um quantitativo maior de magnetismo pessoal, termo que emprego à falta de melhor expressão. 

Esta hipótese é, com efeito, a única capaz de explicar, de qualquer forma, esse princípio seletivo, na percepção dos fatos. Quanto a mim, tenho notado que as impressões mais nítidas e mais profundas, recebidas em semelhantes circunstanciam, provém dos casos de ativa sensualidade. 

Mas, ainda bem que os sensitivos são também aptos a perceber as impressões puras e elevadas, depositadas nos ambientes, notando-se, porém, que estas são de natureza muito mais genérica. Verdade é que, todas as vezes que consegui analisar psicometricamente um temperamento, foi antes graças aos defeitos, que as boas qualidades ao mesmo pertinentes. 

Há alguns anos, achando-me na província, hospedada em casa de uma amiga, a Sra. M..., ocupava um espaçoso e belo quarto. 

Desde a primeira noite, percebi que aquele cômodo estava misteriosamente saturado da influencia de um homem. 

O que me revelava essa influencia era uma forte sensualidade, de criatura não má, mas apenas fraca e inteiramente entregue às circunstancia e aos seus pendores hereditários, à falta de poderes inibitórios. 

Vários outros traços característicos do seu temperamento me foram revelados simultaneamente, mas, desses não me lembro assaz nítidos, de feição a poder descrever. 

O conjunto das impressões foi, contudo, tão pronunciado, que me dispus a iniciar um inquérito a respeito. 

Minha amiga tinha dois filhos no Exército: um, conheci-o eu, nada tinha de comum com o misterioso ocupante do meu quarto; outro, o mais velho, jamais o vira. 

Duvidando que pudesse tratar-se dele, pedi, a pretexto qualquer, me fosse mostrada a sua fotografia. 

O rapaz encontrava-se então nas Índias. 

Analisando o retrato, senti-me liberta da ansiedade moral que me assaltava, convencida de que o meu enigma ficaria sempre insolúvel. 

Minha amiga tinha idéias preconcebidas quanto às faculdades humanas supranormais, julgando-as puramente imaginárias. Eis por que me atirava indiretas irônicas, referentes ao inquérito que qualificava de uma das minhas habituais fantasias. 

Então, disse-lhe: - Agora que tive a prova de que não se trata do seu filho, vou descrever minuciosamente o caráter do indivíduo que ocupou esse quarto. 

Quando terminei minha exposição, a Sra. M... fitou-me grandemente admirada, e, retirando-se para o quarto contíguo, de lá regressou com o retrato de um cavalheiro para mim estranho, e mo entregou, dizendo: Confesso que você acabou de descrever exatamente este meu cunhado, que, de fato, muitas vezes ocupou esse quarto, se bem que meus filhos o fizessem depois dele. 

Analisei, então, o retrato e reconheci nele o tipo de homem que se havia revelado de modo tão evidente pela psicometria. 

Os casos desta natureza, nos quais as percepções dos sensitivos apenas são de natureza genérica e se limitam a impressões mais ou menos vagas, quanto ao temperamento individual do hóspede de um quarto, não se podem explicar facilmente por comunicações estabelecidas à distância, entre o sensitivo e a pessoa inculcada. 

Aqui, deveríamos admitir que o sensitivo receba diretamente impressões da Influência deixada no local pela pessoa que ali esteve. Neste caso, para bem nos compenetrarmos dos fatos, preciso fora admitir que, mobiliário, paredes, assoalho, teto, todo o quarto enfim, possuem a virtude de receber e conservar os eflúvios vitais dos seres, ou as vibrações psíquicas correspondentes à atividade funcional de seus respectivos sistemas cerebrais.