sexta-feira, 7 de setembro de 2012

Sàngó Ensina Aganjú a Controlar o fogo



Sàngó Ensina Aganjú a Controlar o fogo:

Hoje, vamos contar uma história de Aganjún, Divindade da Família de Sàngó.

Aganjú é o Òrìsà da força, deidade do sol e dos vulcões (Obá Aganjú Oniná Oke - "Rei Aganjú, lava das montanhas..."), ele é a força em chamas que emerge da terra.


Aganjú passava por sérios problemas em seu reinado (vizinho à Òyó), sabedor disso, Sàngó o procurou, afim de "ajudá-lo". Próximo às terras de Aganjú, Sàngó ouviu vozes e, se escondeu entre as árvores, objetivando observar o que estava acontecendo. Ficou espantado ao ver um homem em chamas, era Aganjú. 

Ao lado dele estava Òsun, que com a sua água doce, tentava acalmar aquele homem em chamas. Aganjú estava muito nervoso, afinal, seu reino estava em decadência, não obstante, percebeu que havia alguém lhe olhando e, nervoso, indagou quem era. 

Sàngó mostrou-se, dizendo: "Sou Sàngó, o Aláàfìn Òyó". Irritado, Aganjú perguntava quem lhe havia dado permissão para entrar em suas terras. Sàngó disse que não precisava de autorizações, sendo ele o rei de Òyó. 

Cada vez mais furioso, Aganjú disse: 'Você não sabe a que perigo está se expondo com tanta ousadia! Sabe que posso transformá-lo em cinzas agora mesmo?". Rindo, Sàngó disse que se quisesse poderia transforma-se em fogo também. 

Intentando alarmar Aganjú, Sàngó se tomou por fogo, mostrando o seu poder e dizendo que queria apenas ajudá-lo. Aganjú, então, questionou de que forma Sàngó queria lhe ajudar. 

O rei de Òyó disse que poderia lhe ensinar a controlar seus poderes, sendo que Aganjú, acabava por queimar todos àqueles que se aproximavam e, que poderia ser uma espécie de "porta voz" do seu povo. 

Desconfiado, Aganjú perguntou porque ele estava fazendo isso; Sàngó disse que temia que os problemas chegassem à Òyó e por isso estava se prevenindo. 

Òsun, que continuava jogando água em Aganjú, percebia que aquela não era a verdadeira intenção de Sàngó. Aganjú disse que aceitaria a oferta de Sàngó, mas perguntou qual o preço que teria que pagar por isso. 

Sàngó, por sua vez, disse que não havia necessidade em lhe pagar, no entanto, deveria, a partir daquele momento, utilizar todas as ferramentas de Sàngó, tais como Osé e o Séré.

"Desse modo, seu povo, ao ver em minhas mãos as mesmas insígnias usadas por você, não contestará a minha autoridade e, reconhecendo os atributos, acatarão as ordens que a eles eu irei transmitir, afirmou Sàngó". 

Aganjú indagou a opinião de Òsun, que já flertava com Sàngó. Òsun disse acreditar ser um bom negócio, podendo desta forma, restabelecer a ordem em seu País. 

Diante disso, Aganjú aceitou a proposta de Sàngó e recebeu do Aláàfìn de Òyó um Séré e um Osé. 

Feito isso, Sàngó impôs no reinado de Aganjú o seu regimento e, Aganjú por sua vez, começou a utilizar-se das ferramentas de Sàngó. Anos depois, Aganjú tornar-se-ia também um Aláàfìn Òyó.

Que Òsùmàrè Arákà esteja sempre olhando e abençoando todos!!!
Ilé Òsùmàrè Aràká Àse Ògòdó

quarta-feira, 5 de setembro de 2012

MENSAGEM DO DIA

Motumbá meus irmão e minhas irmãs!!!

Hoje venho postar a vocês uma mensagem especial que recebi no meu facebook do meu amigo Jose de Bara, me parabenizando pelo meu aniversário.



Yèyé apara
Mãezinha do movimento da água.

Õbi ìrin bí okun rín ni Ọşun
Mãe da vida, do nascimento, Ọşun é a força do sorriso de alguém

A ji sẹ rí bí e ga
Presenteia com gotas de leite materno, nunca houve tão excelente presente

Yèyé olo omi tútù
Bela mãe dona da água mansa

Apara õjọ bìrí ka le e
Movimento da água efêmera súbitas circulam poderosa

Àgbá õbi ìrin tí gbogbo áyeni pe
Arama, dá o nascimento é a qual todos chamam para obter vida

Sin ọ bá Şọpọnná jẹ
Adoramos ela, absoluta que vence a morte

Pete kì o bà aqlágbara ràn yan nga
Ela tenciona carregar a germinação, pessoa forte altiva alastre seus brilhos em mim

Dídè Ọşun Iyọpọndá 
Suave Ọşun dá muita importância a criação do fluxo da maré

Ẹlẹri pa kọ kọ èní pọn
Testemunha sofrimentos e ensina construir o hoje muito importante

Orí rì oníse Ọba àyíká a şe
Soberana em qualquer tempo cabeça mensageira do ciclo faz

Oje dandan Ọlọrọ o fi àjã
Seiva certa para enriquecer os homens

Wá Ọşun ọmọ-ọba ẹwà
Olhem Ọşun ! Princesa da beleza

Inú ẹkẹ wọ ọmọ olú
Segredos do útero, mestra dos cuidados com criança

Ọşun ìjìyà olú olo odò ìdè
Ọşun mestra da paixão, rio senhora da amarração

Ọyà e ọnà ọna
Pagamento da destreza e da arte

Ọşun ìyá ọmọbíbi
Ọşun mãe do nascimento das crianças

Fé e Respeito




Fé e Respeito:

No último sábado, nós realizamos a enquete: “Quais dos atributos são mais relevantes para os nossos Òrìsàs”? A maioria votou em “Fé e Respeito”. Assim sendo, vamos falar um pouco sobre esses dois importantes atributos, fundamentais e essências nos Terreiros de Candomblé, que se relacionam, mas que infelizmente, nos parece estar ficando para trás. 

A Fé é basilar para um adepto em 
qualquer religião. Mas será que todos estão no Candomblé pela Fé ao Òrìsà? Em verdade, é impossível qualificar ou quantificar a fé de uma pessoa, no entanto, é possível observar algumas ações que demonstram ou não a fé dessa mesma pessoa.

Nos dias atuais, os Sacerdotes, sobretudo os mais tradicionais, sentem-se encurralados diante da desmedida desconfiança de alguns fiéis em relação aos seus ensinamentos e orientações. E isso por um único motivo: A Falta de Fé e de Respeito.

Se hoje, o Sacerdote, por exemplo, não ensinar um ebó que tenha no mínimo 77 ingredientes, sendo que a metade tenha que vir da África, aquilo não lhe servirá, a pessoa julgará falta de conhecimento do Sacerdote. Mas fica a questão, será que a receita com os 77 ingredientes irá ter alguma eficácia diante da pouca fé de quem a realiza?

Aqui em Salvador, escutamos centenas de histórias do povo antigo do Candomblé, as chamadas “mocotonas”, dizendo que em momentos de grandes dificuldades, recorreram às suas Ìyálòrìsàs e elas, após consultar o jogo, lhes disseram: “Minha filha, para esse problema que você está passando, você deve pegar um Acaçá e uma moeda e fazer tal coisa... acredite e tenha fé que tudo vai dar certo”. Essas antigas senhoras, narram essas histórias emocionadamente, com lágrimas nos olhos, falando que respeitaram as orientações e tudo correu bem.

A aclamada Mãe Menininha do Gantois, em correspondência à nossa querida Mãe Simplícia de Ògún a orientou acerca da doença de Mãe Francelina da seguinte forma: “Boa filha de Ogun... quanto a Tia Francelina é um caso quase sem jeito, a doença já tomou conta do corpo dela... ela pode ficar boa, mas será um grande milagre... você passa 1 ekuru grande nela...”.

Um Sacerdote orientar hoje, uma pessoa que passa por grandes dificuldades com um ente querido com um ebó assim, é capaz de ouvir: “O senhor não está dando atenção, meu parente quase morrendo e o senhor me ensina a passar um ekuru? Nesses casos, não há ebó que resolva, pois além dos elementos litúrgicos há um ingrediente transformador de Asè, que se chama Fé. Sem ela nada acontece. Sem falar na falta de respeita para com o Sacerdote. Que penas que pessoas que pensam assim, jamais saberão o poder de um ekuru.

A falta de respeito é evidenciada, por exemplo, quando o Sacerdote joga o Obì em alguma obrigação. Há pessoas que se amontoam por cima de outras só para ver se o Obì “alafiou”. No entanto, essas mesmas pessoas não sabem que existem outras caídas que também mostram o contentamento do Òrìsà e/ou Ancestral. Mas alguns desrespeitosamente ficam à espreita para poder falar: “Viu só, não deu Aláfia”. Se o ouvinte é alguém que conhece e indaga: mais caiu o que? A pessoa logo diz: “Não sei, mas não foi Alafia”... Isso é uma grande falta de respeito e de fé.

Há ainda pessoas que crêem no poder de um acaçá, no poder de um ekuru, no poder de um ovo, mas infelizmente a grande maioria, diante de uma orientação como as relatadas acima, desconfia do Sacerdote, preferindo recorrer às receitas que lhes encante as vistas, mas com pouco ou sem nenhum significado litúrgico.

A pessoa que tem Fé, a fé verdadeira e inabalável, acredita na palavra do Òrìsà. Acredita no poder de um abraço do Òrìsà, acredita que a pipoca de Obaluwaiye cura os males, acredita que o egbo de Òsàlá nos traz a paz, acredita que o Omi Ero de fato apazigua. Acredita no poder de um Ekuru. Mas se a pessoa não tem fé nem respeito, de nada adianta recorrer aos búzios e nem mesmo as receitas mirabolantes.

Nos dias de hoje, é fundamental que as pessoas busquem pela Fé, que as pessoas voltem a se emocionar, que as pessoas voltem a chorar de emoção com a presença de Òrìsà. É essencial que as pessoas voltem a acreditar no Òrìsà e no seu poder. É necessário que as pessoas voltem a respeitar a hierarquia, os mais velhos, os sacerdotes...

Há pessoas que colocam quilos de feijão fradinho nos pés do Òrìsà e nada resolve, mas há pessoas que colocam um punhado de feijão fradinho e tudo da certo... O que difere uma obrigação da outra? A FÉ!

Tenhamos fé e respeito, pois só com esses atributos podemos resgatar a herança dos nossos ancestrais.

Que Òsùmàrè Arákà esteja sempre olhando e abençoando todos!!!
Ilé Òsùmàrè Aràká Àse Ògòdó

terça-feira, 4 de setembro de 2012

Yánsàn, a Mulher Búfalo!




Yánsàn, a Mulher Búfalo!

Um dos insígnias mais representativos de Yánsàn são os chifres de búfalo, é comum vermos Oya dançando com esses chifres à tira colo (Oya Ni O To Iwo Efon Gbe – “Oya é a única que pode agarrar os chifres do Búfalo”). Eles também são usados para "evocar" a grande Deusa dos ventos, conforme ilustra-nos a história a seguir:

"Lutar e levantar o pó como o búfalo" foi quem jogou Ifá para o caçador. Eles disseram que ele deveria fazer um sacrifício para se casar. O Caçador sacrificou dois galos, duas galinhas, cerveja de milho, búzios e pães de inhame. O Caçador fez o sacrifício. 

Um dia este Caçador foi para o campo, quando subiu para a sua plataforma de vigia, viu um Búfalo, mas quando tentou virar a sua arma para ele, o Búfalo transformou-se numa bela virgem vermelha (Oya - Yánsàn). Quando ela acabou de tirar o disfarce, o Caçador viu-a escondê-lo atrás de uma árvore. No entanto, Oya não observou que o Caçador a tinha visto.

Quando a mulher Búfalo foi embora, este Caçador deixou a sua vigia, e pegou o disfarce de Oya, colocando-o em sua bolsa, seguindo-a até o mercado. Quando chegaram lá, este aproximou-se dela, cumprimentou-a e disse a ela que tinha vindo ao mercado em busca dela. Este Búfalo que tinha se transformado em mulher respondeu: "alguma coisa de errado?" O Caçador respondeu que queria se casar com ela. 

A mulher Búfalo disse que não ia se casar com ninguém. Na terceira vez que o Caçador se aproximou com estas palavras, ela perguntou se ele tinha visto alguma coisa por trás dela. O Caçador respondeu que sim. A mulher Búfalo disse: "o que você viu por trás de mim"? Então o Caçador disse que ela deveria ir com ele para que ele pudesse dizer o que tinha visto por trás dela. 

Quando saíram do mercado, o Caçador botou a mão no saco e retirou o disfarce mostrando para ela. Quando ela viu o disfarce, disse que ele deveria ter pena dela e que ela se casaria com ele. A mulher Búfalo voltou ao mercado, reuniu as mercadorias e saiu com o Caçador, mas enquanto estavam na estrada, ela disse que ele não deveria comentar nada daquilo com ninguém; e o Caçador afirmou que não diria nada. Assim, ela se tornou sua esposa e eles viveram juntos na casa dele. 

Esta mulher começou a ter filhos, mas a esposa com quem o Caçador se casara primeiro, começou a importuná-lo, perguntando onde ele tinha encontrado a segunda esposa, pois ele não comentara o assunto. O Caçador disse que ela era filha das mulheres que vieram ao campo para comprar carne com ele. A resposta não satisfez a primeira esposa e ela começou a indagar se ela tinha vindo desta ou daquela cidade. 

O Caçador respondeu que era de uma cidade diferente, mas ainda assim isto não satisfez à mulher. E ela começou a fazer perguntas. Enquanto perguntava, a mulher Búfalo teve o seu primeiro filho, e o segundo filho. A primeira esposa foi ao filho mais velho do Caçador e discutiu o assunto com ele. O filho mais velho pegou o pai e deu-lhe muito vinho de palma para beber. Quando o caçador bebeu, seu filho perguntou: "onde encontrou a sua esposa?" Ele respondeu que ela era um Búfalo, que ele a tinha visto retirando o disfarce no campo, e que ele tinha pego o disfarce e ido ao mercado com ela, que tinha mostrado a ela o disfarce e que daquele dia em diante, ela tinha sido sua esposa. 

Quando o filho mais velho do Caçador chegou em casa, contou isto para sua mãe. Depois de um tempo, o Caçador se aprontou e foi para o campo, mas no segundo dia após a sua partida, sua primeira esposa pegou um pedaço de madeira e atirou-o ao chão para parti-lo (é um tabu jogar a madeira contra o chão desta maneira na casa de um caçador). 

A mulher Búfalo perguntou se o marido delas não a teria avisado que ela não deveria quebrar a madeira desta forma na casa dele. Então a primeira respondeu com desdém: "cuide de sua vida e vá embora! você é um ser humano e um animal, o seu disfarce esta escondido no telhado." Quando a mulher Búfalo ouviu isto, respondeu: "ha!" e ficou quieta. Aprontou-se e foi procurar no telhado. Quando chegou lá, encontrou o disfarce onde o Caçador o tinha escondido e o trouxe, mas ele estava muito ressecado, então, ela juntou um pouco de água e colocou o disfarce dentro. 
Depois foi até a esposa mais velha, deu-lhe uma cabeçada e a matou. Feito isso, ela tirou um dos seus dois chifres e foi até o campo. Quando o Caçador a viu chegando, soube que um pedaço de madeira tinha sido quebrada em sua casa. Quando ela quis dar uma marrada no marido, ele disse que ela não deveria fazer aquilo com ele.

Então, ela perguntou ao Caçador, como a primeira esposa tinha sabido sobre o mistério dela. O Caçador contou como o filho mais velho o levara e lhe dera muito vinho de palma para beber, até ele não saber mais o que falava. Então ela disse: "Está bem." Disse que não o mataria, mas que ele fosse para casa e que sempre que os filhos dela quisessem realizar seu festival anual, ele deveria sacrificar com eles para o chifre que ela tirara e tinha deixado em casa como uma lembrança. 

Daquele tempo em diante, seus filhos continuaram a sacrificar para os chifres desta maneira, são o que chamamos e cumprimentamos como os "filhos do Búfalo" até hoje. 

No Terreiro de Òsùmàrè, até hoje é entoada uma cantiga que alude a passagem supra narrada, na qual Yánsàn sobe no telhado em busca da sua roupa, que havia sido escondida pelo seu marido

Que Òsùmàrè Arákà esteja sempre olhando e abençoando todos!!!
Ilé Òsùmàrè Aràká Àse Ògòdó

segunda-feira, 3 de setembro de 2012

culto a Egúngún




Para cultuarmos nossos Òrìsàs, devemos antes de tudo, saudarmos nossos ancestrais. Existem casas específicas para o culto à Egúngún, grande parte delas estão na Ilha de Itaparica, aqui na Bahia e no Rio de Janeiro. O Culto à Egúngún é liderado por homens. Nessas casas existe uma hierarquia composta de diversos oyes (cargos) que compõem o egbé (comunidade). Os sacerdotes do culto aos ancestrais tem
o poder de invocar os Egúngún trazendo-os de volta ao aye através de vestimentas especiais. 

Um Itan de Ifá nos ensina como nasceu o culto a Egúngún. 

Na cidade de Oyo (África), existia um fazendeiro chamado Alapini. Esse fazendeiro tinha três filhos, quais sejam, Ojewuni, Ojesami e Ojerinlo. Certo dia, o fazendeiro Alapini fez uma viagem e recomendou aos filhos que não comessem um tipo especial de inhame, haja vista ele deixar as pessoas com uma sede desmedida. Muito embora tivessem recebido as recomendações de seu pai, os filhos ignoraram a advertência e comeram em excesso o aludido inhame. Como já anunciado pelo Alapini, eles tiverem uma sede imensurável e beberam água até a morte. 

Quando do seu retorno, o Alapini deparou-se com seus filhos mortos e resolveu procurar um Babalawo. Através do jogo de Ifá, o Babalawo disse que no décimo sétimo dia da morte de seus filhos, o Alapini deveria ir até um bosque que havia perto do rio e pegasse uma galho de Àtòrì (Glyphaea Brevis). Nesse bosque ele deveria bater no chão três vezes o Isan (o bastão feito da árvore Àtòrì) e pronunciar certas palavras mágicas e chamar pelo nomes dos filhos "wa de" (venha), na terceira vez os filhos retornariam à terra. 

Conforme orientação do Babalawo, o Alapini fez o ritual e para sua surpresa, seus filhos retornaram à terra. Mas ele ficou assustado com as formas que eles tinham e então preparou roupas de modo que seus corpos ficassem cobertos.

Que Òsùmàrè Arákà esteja sempre olhando e abençoando todos!!!
Ilé Òsùmàrè Aràká Àse Ògòdó

sexta-feira, 31 de agosto de 2012

As Águas de Òsàlá, você sabe porque fazemos?



As Águas de Òsàlá, você sabe porque fazemos?

Òsàlá é a grande Divindade do Candomblé, considerado o "Òrìsà dos Altos" (Òrìsà Nlá) é sem sombra de dúvidas, das Divindades que se manifesta, a mais respeitada em todo o Brasil. É considerado o dono do branco e por essa razão é chamado de Òrìsà Funfun. Em suas obrigações, todos os seguidores do Candomblé, sejam iniciados para Òsàlá ou não, se vestem d
e branco em sinal de respeito e devoção. Ele é o grande detentor de Asè e por isso o chamamos de "Alábáláàsè".

Òsàlá é festejado numa cerimônia denominada "águas de Òsàlá". Esse ritual é um dos mais bonitos do Candomblé. Nele, ocorre uma procissão na qual os objetos de adoração à Òsàlá são depositados num local sagrado. Após isso, todos os filhos da casa dormem no salão principal, onde está plantado o Asè da casa. Na aurora do dia seguinte, todos os omo Òrìsà, rigorosamente vestidos de branco, acordam em silêncio para carregarem em procissão, a água retirada da fonte consagrada à Òsàlá e que será utilizada para lavar os objetos sagrados do Deus, constantes no local sagrado. 

Mas afinal, porque realizamos essa linda cerimônia chamada de “Águas de Òsàlá”? Abaixo, transcrevemos a história que justifica esse ritual que é realizado no Terreiro de Òsùmàrè.

"Òsálúfon, rei de Ifon, decidira visitar Sàngó, o rei de Òyó, seu amigo. Antes de partir, Òsálúfon consultou um Babaláwo para saber se sua viagem se realizaria em boas condições. O babaláwo respondeu que ele seria vítima de um desastre, não devendo, portanto, realizar a viagem. Òsálúfon, porém, tinha um caráter obstinado e persistiu em seu projeto, perguntando que sacrifícios poderia fazer para melhorar a sua sorte. O babaláwo lhe confirmou que a viagem seria muito penosa, que teria de sofrer numerosos reveses e que, se não quisesse perder a vida, não deveria jamais recusar os serviços que, por acaso, lhe fossem pedidos, nem reclamar das conseqüências que disso resultassem. Deveria, também, levar três roupas brancas para trocar e "Ose dudu" (Sabão da Costa). Òsálúfon se pôs a caminho e, como fosse velho, ia lentamente, apoiado em seu cajado de estanho. Encontrou, logo depois, Èsù Elèpo Pupa (Èsù dono do Azeite de Dendê), sentado à beira da estrada com um barril de azeite de dendê ao seu lado. Após uma troca de saudações, Èsù pediu a Òsálúfon que o ajudasse a colocar o barril sobre a sua cabeça. Òsálúfon concordou e Èsù aproveitou para, durante a operação, derramar, maliciosamente, o conteúdo do barril sobre Òsálúfon, pondo-se a zombar dele. Este não reclamou, seguindo as recomendações do babaláwo; lavou-se no rio próximo, pôs uma roupa nova e deixou a velha como oferenda. Continuou a andar com esforço, e foi vítima, ainda por duas vezes, de tristes aventuras semelhante a primeira, no entanto, com Èsù-Eléèdu (Èsù dono do Carvão) e Èsù Aláàdì (Èsù dono do àdì "óleo da amêndoa do dendezeiro). Òsálúfon, sem perder a paciência, lavou-se e trocou de roupa após cada um das experiências. Chegou, finalmente, à fronteira do reino de Òyó e lá encontrou um cavalo que havia fugido, pertencente a Sàngó. No momento em que Òsálúfon quis amansar o animal, dando-lhe espigas de milho, com a intenção de levá-lo ao seu dono, os servidores de Sàngó, que estavam à procura do animal, chegaram correndo. Pensando que o homem idoso fosse um ladrão, caíram sobre ele com golpes de cacete e jogaram-no na prisão. Sete anos de infelicidade se abateram sobre o reino de Sàngó. A seca comprometia a colheita, as epidemias acabavam com os rebanhos, as mulheres ficavam estéreis. Sàngó, tendo consultado um babaláwo, soube que toda essa desgraça provinha da injusta prisão de um velho homem. Depois de seguidas buscas e muitas perguntas, o prisioneiro foi levado à sua presença e ele reconheceu seu amigo, Òsálúfon. Desesperado pelo que havia acontecido, Sàngó pediu-lhe perdão e deu ordem aos seus súditos para que fossem, todos vestidos de branco e guardando silêncio em sinal de respeito, buscar água três vezes seguidas a fim de lavar Òsálúfon. Em seguida, este voltou a Ifon, passando por Èjìgbó para visitar seu filho Osògiyán, que, feliz por rever seu pai, organizou grandes festas com distribuição de comidas a todos os assistentes.

Assim sendo, pelo dia de hoje, pedimos ao nosso Pai Òsàlá que cubra todos com o seu Alá, trazendo paz, harmonia e felicidade!!!

Que Òsùmàrè Arákà esteja sempre olhando e abençoando todos!!!
Ilé Òsùmàrè Aràká Àse Ògòdó

quinta-feira, 30 de agosto de 2012

A ORIGEM SEGUNDO O CANDOMBLÉ



Há pouco mais de um mês, o Terreiro de Òsùmàrè iniciou uma série de postagens com objetivo de esclarecer os adeptos e simpatizantes do Candomblé, sobre a nossa rica cultura, bem como, postar matérias com temas concernentes aos Deuses Africanos e Candomblé, de modo geral.

Nesse período falamos de assuntos importantes como: a razão de Ògún usar o Mariwo como sua veste, a razão de não utilizarmos máscaras nos Òrìsàs. 

Falamos sobre o Olugbajé, discorremos sobre o motivo de o Arco-Íris representar o nosso patrono, Òsùmàrè, sobre os Àbíkú, Sàngó, Yánsàn, dentre muitos outros temas relevantes.

Hoje vamos falar do princípio de tudo segundo a visão dos Yorùbás. Todas as religiões acreditam num modo de criação do mundo e, com o Candomblé não é diferente. Dessa forma, transcrevemos abaixo, uma das mais importantes histórias do oráculo de Ifá, publicado por Juanita Elbein dos Santos, que discorre sobre a criação do mundo em que vivemos.

Quando Olórun decidiu criar a terra, chamou Obàtálà, entregou-lhe o Àpò Ìwà (saco da existência) e deu-lhe as instruções necessárias para a realização da magna tarefa. Obàtálà reuniu todos os Òrìsà e preparou-se, sem perda de tempo. De saída, encontrou-se com Odùduwà que lhe disse que só o acompanharia após realizar suas obrigações rituais, já no Òna-Òrun, caminho, Obàtálà passou diante de Èsù. Este, o grande controlador e transportador de sacrifícios que domina os caminhos, perguntou-lhe se já tinha feito as oferendas propiciatórias. Sem se deter, Obàtálà respondeu-lhe que não tinha feito nada e seguiu seu caminho sem dar mais importância a questão. E foi assim que Èsù sentenciou que nada do que ele se propunha empreender seria realizado.

Em efeito, enquanto Obàtálà seguia seu caminho começou a ter sede. Passou perto de um rio, mas não parou. Passou por uma aldeia onde lhe ofereceram leite, mas ele não aceitou. Continuou andando. Sua sede aumentava e era insuportável. De repente, viu diante de si uma palmeira ("Igi-Òpe" - Dendezeiro - "Elaeis Guineenssis") e, sem se poder conter, plantou no tronco da árvore seu cajado ritual, o Òpásóró, e bebeu a seiva ("emú" - vinho de palma). Bebeu insaciavelmente até que suas forças o abandonaram, até perder os sentidos e ficou estendido no meio do caminho.

Nesse meio tempo, Odùduwà, que foi consultar Ifá, fazia suas oferendas à Èsù. Seguindo os conselhos dos Babaláwos, ele trouxera cinco galinhas, das que têm cinco dedos em cada pata, cinco pombos, um camaleão, dois mil elos de cadeia e todos os outros elementos que acompanham o sacrifício. Èsù apanhou estes últimos e uma pena da cabeça de cada ave e devolveu a Odùduwà a cadeia, as aves e o camaleão vivos.

Odùduwà consultou outra vez os Babaláwos que lhe indicaram ser necessário, agora, efetuar um ebo, aos pés de Olórun, de duzentos ìgbín, os caracóis que contêm o "sangue branco", "a água que apazigua", Omí-Èrò. Quando Odùduwà levou o cesto com ìgbín, Olórun aborreceu-se vendo que Odùduwà ainda não tinha partido com os outros. Odùduwà não perdeu sua calma e explicou que estava obedecendo as ordens de Ifá. Foi assim que Olórun decidiu aceitar a oferenda e ao abrir seu Àpére-Odù - espécie de grande almofada onde geralmente ele está sentado - para colocar a água dos ìgbín, viu com surpresa, que não havia colocado no Àpò Ìwà - bolsa da existência - entregue a Obàtálà, um pequeno saco contendo a terra. Ele entregou nas mãos de Odùduwà para que ele, por sua vez, a remetesse a Obàtálà.

Odùduwà partiu para alcançar Obàtálà. Ele o encontrou inanimado ao pé da palmeira, contornado por todos os Òrìsàs que não sabiam o que fazer. Depois de tentar em vão acordá-lo, ele apanhou o Àpò Ìwà que estava no chão e voltou para entregá-lo a Olórun. Este decidiu, então, encarregar Odùduwà da criação da terra. Na volta de Odùduwà, Obàtálà ainda dormia; ela reuniu todos os Òrìsàs e explicou-lhes que fora delegada por Olórun e eles dirigiam-se todos juntos para Òrun Àkàsò por onde deviam passar para assim alcançar o lugar determinado por Olórun para a criação da terra.

Èsù, Ògún, Òsóòsì e Ìja conheciam o caminho que leva às águas onde iam caçar e pescar. Ògún ofereceu-se para mostrar o caminho e converteu-se no Asiwajú e no Olúlànà - aquele que está na vanguarda e aquele que desbrava os caminhos. Chegando diante do Òpó-Òrun-Oún-Àiyé, o pilar que une o Òrun ao mundo, eles colocaram a cadeia ao longo da qual Odùduwà deslizou até o lugar indicado por cima das águas.

Ela lançou a terra e enviou Eyelé, (a pomba), para esparramá-la. Eyelé trabalhou muito tempo. Para apressar a tarefa, Odùduwà enviou cinco galinhas de cinco dedos em cada pata. Estas removeram e espelharam a terra imediatamente em todas as direções, à direita, à esquerda e ao centro, a perder de vista. Elas continuaram durante algum tempo, Odùduwà quis saber se a terra estava firme. Enviou um camaleão que, com muita precaução, colocou primeiro uma pata, tateando, apoiando-se sobre esta pata, colocou a outra e assim sucessivamente até que sentiu a terra firme sobre suas patas (Olé? "ela está firme?" Kole "ela não está firme?").

Quando o camaleão pisou por todos os lados, Odùduwà tentou por sua vez. Odùduwà foi a primeira entidade a pisar na terra, marcando-a com sua primeira pegada. Essa marca é chamada de Esè Ntaiyé Odùduwà. Atrás de Odùduwà vieram todos os outros Òrìsàs, colocando-se sob sua autoridade. Começaram a instalar-se. Todos os dias Òrúnmìlà, consultava Ifá para Odùduwà. Nesse meio tempo, Obàtálà acordou e vendo-se só, sem o Àpò Ìwà retornou a Olórun, lamentando-se de ter sido despojado do Àpò. Olórun tentou apaziguá-lo e em compensação transmitiu-lhe o saber profundo e o poder que lhe permitia criar todos os tipos de seres que iriam povoar a terra ("os trabalhos transcendentais de criação permitir-lhe-iam criar todos os seres humanos e as múltiplas variedades de espécies que povoariam os espaços do mundo: todas as árvores, plantas, ervas, animais, aves, pássaros, peixes e todos os tipos de humanos).

Foi assim que Obàtálà aprendeu e foi delegado para executar esses importantes trabalhos. Então, ele se preparou para chegar à terra. Reuniu os Òrìsàs que esperavam por ele, Olúfón, Eteko, Olúorogbo, Olúwofin, Ògìyán e o resto dos Òrìsàs Funfun. No dia em que estavam para chegar, Òrúnmìlà, que estava consultando Ifá para Odùduwà, anunciou-lhe o acontecimento. Obàtálà, ele mesmo, e seu séquito vinham dos espaços do Òrun. Òrúnmìlà fez com que Odùa soubesse que se ela quisesse que a terra fosse firmemente estabelecida e que a existência se desenvolvesse e crescesse como ela havia projetado, ela devia receber Obàtálà com reverência e todos deveriam considerá-lo como seu pai.

No dia de sua chegada, Obàtálà foi recebido e saudado com grande respeito: "Obá Áláá, seja bem vindo! Oba Nlá (o grande rei) acaba de chegar... Os escravos vieram servir seu mestre..... Oh! senhor dos habitantes do mundo!".

A exemplo de muitas histórias, essa também narra sobre a importância da realização dos sacrifícios, sobre a importância de realizarmos aquilo que o oráculo sagrado nos prescreve e muitas lições que, certamente valem para a vida toda.

Que Òsùmàrè Arákà esteja sempre olhando e abençoando todos!!!

Ilé Òsùmàrè Aràká Àse Ògòdó